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Apresentação da Rebelião das Massas,

 de José Ortega y Gasset

Danilo Santos Dornas

 

 

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O filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) escreveu os artigos que vieram a compor a obra A Rebelião das massas em outubro de 1929 no diário El Sol de Madri. O livro foi editado em 1930, tornando-se uma das obras mais conhecidas do autor em todo o mundo. A primeira edição brasileira apareceu em agosto de 1987, pela editora Martins Fontes com tradução de Marylene Pinto Michael e revisão de Maria Estela Heider Cavalheiro.

 O livro é dividido em duas partes: a) A Rebelião das massas; e b) Quem manda no mundo? Cada parte subdivide-se nos artigos que o autor desenvolveu para o esclarecimento de suas teses filosóficas e sociológicas, que serão examinadas nesta resenha, com ênfase na filosofia política. Podemos adiantar que não é uma obra difícil de ser lida; porém, os conceitos trabalhados só podem ser compreendidos se entendermos os problemas que ele pretende enfrentar.

A Rebelião das massas é uma resposta aos problemas gerados pela política empenhada em 1931, embora o autor reconheça que não é um livro escrito por um político atuante. A obra reflete os problemas de uma época de dúvidas e incertezas quanto ao destino vital da Espanha. 

Julían Marías (nasc. 1914), importante estudioso de Ortega y Gasset, explica, em sua História da Filosofia, que este livro mereceu diversas interpretações e foi entendido como um conjunto de teses e afirmações fragmentadas originado de artigos do filósofo. Desse modo, por um bom tempo não atentaram para sua totalidade e nem perceberam que os artigos possuem unidade na relação entre os temas abordados. Repetindo Ortega y Gasset, Julían Marías afirma que: um livro é sempre um livro e deve ser lido na sua totalidade.

Essa obra de Ortega y Gasset não se distancia da temática de Meditações do Quixote (1914): “Eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela não salvo a mim”.

No primeiro artigo intitulado O fato das aglomerações, o autor explica como estava a sociedade em seu tempo. Eis o que diz:

 

“As cidades estão cheias de gente. As casas, cheias de inquilinos. Os hotéis, cheios de hóspedes. Os trens, cheios de passageiros. Os cafés, cheios de consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. Os consultórios dos médicos famosos, cheios de pacientes. Os espetáculos, não sendo muito fora de época, cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não costumava ser problema agora passa a sê-lo quase de forma contínua: encontrar lugar” (p. 36).

 

Essa análise do filósofo significa que o quantitativo visual, transposto para a terminologia sociológica, significa “massa social”. Do mesmo raciocínio retira o conceito de minoria que completa o conceito de massa. Dessa maneira, o entendimento da sociologia sugere a divisão da sociedade em dois pólos que ele traduz com a seguinte fórmula:

 

"As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas” (p. 37).

 

Ao identificar as “massas”, não está falando de uma classe social inferiorizada, mas de uma classe de homens. O “homem-massa” é uma anormalidade, uma deformação doentia que pode ocorrer em qualquer classe. O “homem-massa” é o indivíduo que não atribui a si mesmo um valor, e certamente não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais indivíduos. O filósofo ainda explica que as minorias seletas não são uma classe social superior, mas grupos minoritários que agem ao contrário das massas. Ortega y Gasset entende que a partir do momento em que os indivíduos seletos deixam de executar suas tarefas vitais, eles passam também a viver como “homens-massa”.

O conceito de rebelião no título da obra não é contra políticos, mas contra o homem vulgar, contra o “homem-massa”. As propostas sugeridas pelo filósofo são que cada indivíduo estabeleça os mecanismos que impedem o crescimento próprio. Negar essa tarefa é, no sentir de Ortega y Gasset, uma falsidade, uma enfermidade social.

O problema encontrado por Ortega y Gasset neste primeiro artigo é o que ele chama de “hiperdemocracia das massas”. A “hiperdemocracia das massas” é o fato das massas atuarem sem leis, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. As massas propuseram a distanciar-se dos assuntos políticos, não discutindo e não participando das atividades políticas, o que consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela ignorância. A lei que ocupa essa hiperdemocracia é: “Quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado” (p. 41).

Em outro artigo do livro intitulado A subida do nível histórico, o filósofo explica que o grande sucesso do seu tempo é o acesso das massas à vida histórica, é a criação da civilização. Por mais de dois milênios se esforçam para edificarem uma construção comum, mas mesmo com todo esse esforço e sucesso o homem continua vulnerável, fraco e até patológico por causa de seus problemas e suas inseguranças. O homem não consegue viver humanamente sem manter uma tensão criadora e precisa estar alerta aos desafios de sua época para experimentar um desafio que o leve para frente.

A partir do momento em que o homem não consegue dar um passo para o sucesso, ele vive problemas psicológicos, ele não sabe executar seu talento. Ortega y Gasset entende que o homem deve se ocupar com o que ele se identifica, caso contrário, experimentará o fracasso, transformando-se em “homem-massa”. Cabe aos educadores tentarem curar essa doença individual. Na passagem a seguir, Ortega y Gasset aponta os limites da Escola:

 

“Nas escolas que foram motivo de orgulho para o século passado, não foi possível fazer mais do que ensinar às massas as técnicas da vida moderna, mas não se conseguiu educá-las”  (p. 70).

 

A história, a política e a cultura revelam somente a superfície das relações humanas. A realidade histórica é muito mais do que essas ciências revelam, é mais profunda. Para o filósofo, consiste na pura ânsia de viver. O principal motivo que levou o homem a afastar-se da sua condição de indivíduo, a não angustiar-se com seus problemas, foi o fato de ele sentir que o passado se tornou pequeno diante do presente:

 

“Essa grave dissociação entre o passado e o presente é o acontecimento comum de nossa época e nela está incluída a suspeita, um pouco confusa, que leva à perturbação da vida nestes anos. Os homens atuais sentem de repente que ficaram sozinhos sobre a terra; que os mortos morreram de fato; que já não pode ajudar-nos. O resto do espírito tradicional se evaporou. Os modelos, as normas, as linhas de conduta já não nos servem. Temos que resolver nossos problemas sem a colaboração efetiva do passado, em pleno atualismo – sejam eles de arte, de ciência ou de política” (p. 58).

 

Até o momento podemos tirar algumas conclusões da explicação dada pelo filósofo. A primeira é que a democracia liberal é a melhor forma de organização política que nossa cultura criou, mas foi a aplicação a civilização da técnica. A segunda é que essa forma de vida não é a melhor maneira de viver. E, por último, que é perigoso o retorno a formas de vida próprias dos séculos passados.

Sendo assim, a democracia liberal e a técnica foram unidas e são as formadoras da geração que se seguiu no início do século XX. Trata-se de uma nova forma de vida. Criou-se um novo ambiente para a convivência social regida por três princípios: a democracia liberal, as experiências científicas e a sociedade industrial.

O filósofo conclui que esses elementos não foram inventados no século XIX, mas nos séculos anteriores. O século XX deu ao movimento rumos próprios. A mudança experimentada fez com que os homens acreditassem que a vida é sinônimo de limitação, obrigação, dependência, ou seja: pressão. O homem comum entende que o mundo da técnica é o natural. O mundo técnico aparece, para ele, como uma criação perfeita da Natureza:

 

“Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira, porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que está-aí, do que dizemos é natural, porque não falha. Essas massas mimadas são bem pouco inteligentes para acreditar que essa organização material e social, posta à sua disposição como o ar, é da mesma origem que este, já que, pelo visto, também não falha, e é quase tão perfeita como a natural” (p. 77).

 

A vida, para o filósofo, não é mais que lidar com o mundo. Para Ortega y Gasset, a vida é o jogo de possibilidades ilimitadas e independentes de outras pessoas. Com tal afirmativa, retirada do artigo Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia, entendemos que o filósofo complementa aquilo que traduz na segunda parte de sua fórmula: e se não salva a circunstância, não salvo a mim também:

 

“Viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter que considerar o que nos limita, a voz novíssima grita: Viver é não ter limite algum; portanto, é abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém” (p. 79).

 

Nessa passagem acima fica claro o que o filósofo chama de esforço que, para a elaboração de sua Filosofia Política, possui uma significado importante para tratar suas condições vitais. Aos olhos do “homem-massa”, o viver não possui essa direção, ele apenas espera elevar seu padrão de vida. Outro assunto importante é o exame do conceito de nobreza. Nobreza, para ele, é “sinônimo de vida dedicada, sempre disposta a superar a si mesma, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência” (p. 82). Dessa forma, Ortega y Gasset distingue a vida nobre da vida vulgar. Feita essa distinção, podemos passar para o artigo Por que as massas intervêm em tudo e por que só intervêm violentamente.

Nesse artigo surge plenamente justificado o título da obra. A rebeldia das massas é a obliteração das almas medíocres e constitui um gigantesco problema para a humanidade. Para tratar esse assunto, o filósofo distingue o tolo, que é o sujeito que não desconfia de si, não indaga sobre seus problemas e nem percebe a vida que está em torno. Já o perspicaz, diversamente, “surpreende a si mesmo (...) e se esforça para escapar iminente da tolice, e esse esforço consiste na inteligência”(p. 86). Então, para que haja uma cultura, é preciso que haja homens inteligentes, esforçados, senão toda a criação humana até aqui edificada se transforma numa barbárie. A barbárie é a rebelião das massas, na qual os homens passam a não mais dar conta de si, não mais recorrem à civilização e se aprofundam numa estagnação de valores.

Ortega y Gasset menciona alguns movimentos que aconteceram na Europa que exemplificam o que ele entende por estado de barbárie. Tais movimentos são o sindicalismo e o fascismo:

 

“Entre as espécies de sindicalismo e de fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razão e nem quer ter razão, mas, que simplesmente, mostra-se decidido a impor suas opiniões. Aqui está o novo: o direito a não ter razão, a razão da sem razão” (p. 89).

 

Assim, o homem que aí se encontra quer opinar, mas não aceita as condições de opinar, que é o conhecimento dos pressupostos históricos, dos fatos que levaram as nações a prosperarem e a declinarem. Em todas as épocas, conta o filósofo, quando as massas atuaram na vida pública não discutiram tal circunstância. Nunca sentiram que a civilização é antes de tudo vontade de conviver, enquanto a barbárie é a tendência da dissociação. Para Ortega y Gasset, a melhor forma para solucionar esse convívio é a democracia liberal. Segundo ele, esse modelo de democracia consiste na maior representação da vontade de conviver. O liberalismo é o direito político que limita o poder público porque outorga à minoria o direito da maioria.

Ao examinar o artigo seguinte, Primitivismo e História, entendemos que o “homem-massa” entende a civilização como algo natural. Os valores essenciais da cultura não o interessa, ele não é sensível a eles. Isso aconteceu devido ao processo de reconstrução da Europa depois da Primeira Grande Guerra. “O corpo vulgar da Europa central não quer pô-los sobre os ombros” (p. 105). O homem fracassa por não acompanhar o progresso de sua própria civilização. Nos debates políticos, homens cultos ainda formulam e teorizam seguindo os conceitos já inoperantes que em tempos passados serviram para solucionar problemas menos sutis. Nesse sentido, Ortega y Gasset equilibra no mesmo nível o avanço da civilização com os problemas vividos pelas gerações. Na medida em que a civilização avança, mais problemas surgirão e soluções mais complexas serão exigidas. O problema ainda mais grave da época em que viveu o filósofo foi o abandono das ciências humanas. O dirigente político, por exemplo, pouco sabe de história e toda sua política está calculada para evitar o erro numérico. Esses mesmos dirigentes não entenderam que o passado histórico quando esquecido elimina a “cultura histórica”, ou seja, a construção humana do passado, transformando o Estado em barbárie.

Ortega y Gasset diz que o “homem-massa”, que é pouco exigente, acaba conduzido por pessoas medíocres, extemporâneas e sem grande memória, ou seja, sem consciência histórica, que se comportam como se o passado tivesse acabado. Não se trata de discutir o credo das pessoas em ideais marxistas, mas em entender que os dirigentes da Rússia em 1917 não tiveram preocupação em corrigir os erros antigos. Não houve uma preocupação com a vida humana. A frase com a qual o filósofo define o que é “Revolução” é simples e direta: “A Revolução devora seus próprios filhos” (p. 107). O político genial, considerado pelo filósofo, é aquele que leva os professores de História a ficarem loucos, “ao verem que todas as leis de sua ciência caducaram, foram derrogadas e pulverizadas” (p. 107).

Ortega y Gasset admite que é preciso superar o liberalismo do século XIX, mas não com nenhum tipo de antiliberalismo. O liberalismo já é uma inovação da vivência do homem. Antiliberal era que os homens faziam antes do advento do Liberalismo. Ser anti é, para o filósofo, uma postura equivocada que não levará a superar os problemas então vividos:

 

“Quem se declara anti-Pedro, traduzindo numa linguagem positiva, nada mais faz que se declarar partidário de um mundo onde não exista Pedro. Pedro ainda não tinha nascido. O antipedrista, em vez de se colocar depois de Pedro, coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada, no fim da qual se encontra inexoravelmente a reaparição de Pedro” (p. 108).

 

Para o filósofo, os problemas da Europa não serão solucionados se não forem administrados por pessoas “contemporâneas” do seu tempo.

Numa boa organização das coisas públicas, a massa não atua por si mesma. As massas estão no mundo para serem representadas e dirigidas. Quando, numa sociedade, a massa atua por si mesma, ela só age de uma única forma: lincha.

 

“Não é totalmente por acaso que a Lei de Linch é americana, já que os Estados Unidos são, de certo modo, o paraíso das massas. Nem muito menos se pode estranhar que agora, quando as massas triunfam, triunfe também a violência e se faça dela a única ratio, a única doutrina” (p. 128).

 

Essa é a atitude a que as massas recorrem para implantar sua justiça. E, a partir da defesa dos homens da violência nasce o Estado. No artigo O maior perigo, o Estado, Ortega y Gasset explica que o Estado de sua época é o produto mais visível e notório da civilização. Entretanto, o grande erro está naqueles homens que não refletem ao dizer e repetir: “O Estado sou eu”. E a massa embarca nessa idéia sem perceber o erro que isso causa para uma nação. Os homens que assim pensam acabam massacrando as minorias que não pensam como eles:

 

“O Estado só é massa no sentido em que se pode dizer que dois homens são idênticos porque nenhum deles se chama João. O Estado Contemporâneo e a massa só se coincidem em ser anônimos. Mas acontece que o homem-massa pensa, de fato, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto, a esmagar com ele qualquer minoria criadora que o perturbe – que o perturbe em qualquer campo: na política, nas idéias, na indústria” (p. 132).

 

O resultado dessa tese é fatal para a vida. Os homens passarão a viver em função do Estado, tornando-se máquinas do governo. Após certo tempo trabalhando como máquinas, os homens se tornarão como máquinas: enferrujados, o que é muito pior que a morte orgânica, completa Ortega y Gasset.

No ano de publicação da obra, Ortega y Gasset declara que tanto o fascismo como o comunismo são dois potenciais fabricantes de “homem-massa” e que o maior perigo que a Europa passaria seria as massas se renderem a essas formas políticas. Numa explicação do filósofo, a Europa acabou ficando sem moral quando intentou a delicada operação de mandar no mundo, de estabelecer normas válidas que dão uma caricatura da vida coletiva. Neste livro, Ortega y Gasset também dá início à sua investigação sobre os processos de nacionalização e união dos países europeus. Esse processo consiste em identificar as diferenças existentes entre as sociedades e o Estado. A partir dessa investigação, ele entende que os problemas de cada Estado ultrapassam suas fronteiras, e por isso têm a necessidade em solucioná-los em conjunto. Está claro que Ortega y Gasset postula desde 1930 a formação da União Européia.
 

A Rebelião das massas é um livro de Filosofia que deve ser lido integralmente. É uma obra-prima de Ortega y Gasset e apresenta uma nova forma de encarar o mundo. Nossa existência é experiência individual, e o mundo é a união das sociedades. Nesse sentido, Ortega y Gasset foi um defensor do valor de cada pessoa humana, determinando o conceito de vida de cada um. Assim, o “homem-massa” passa a ser um inimigo do consciente de sua singularidade.

 

 

Bibliografia

ORTEGA Y GASSET, José.  A Rebelião das Massas. São Paulo: M.Fontes, 1987.


Danilo Santos Dornas

Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea - Ética
Universidade Federal de São João del-Rei

      
 
 © Danilo Santos Dornas