1914), importante estudioso
de Ortega y Gasset, explica, em sua História da
Filosofia, que este livro mereceu diversas interpretações e foi
entendido como um conjunto de teses e afirmações fragmentadas originado de
artigos do filósofo. Desse modo, por um bom tempo não atentaram para sua
totalidade e nem perceberam que os artigos possuem unidade na relação entre os
temas abordados. Repetindo Ortega y Gasset, Julían Marías afirma que: um livro
é sempre um livro e deve ser lido na sua totalidade.
Essa obra de Ortega y Gasset
não se distancia da temática de Meditações do
Quixote (1914): “Eu sou eu e minha
circunstância e se não salvo a ela não salvo a mim”.
No primeiro artigo intitulado
O fato das aglomerações, o autor explica como estava a
sociedade em seu tempo. Eis o que diz:
“As
cidades estão cheias de gente. As casas, cheias de inquilinos. Os hotéis,
cheios de hóspedes. Os trens, cheios de passageiros. Os cafés, cheios de
consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. Os consultórios dos médicos
famosos, cheios de pacientes. Os espetáculos, não sendo muito fora de época,
cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não
costumava ser problema agora passa a sê-lo quase de forma contínua: encontrar
lugar” (p. 36).
Essa análise do filósofo
significa que o quantitativo visual, transposto para a terminologia
sociológica, significa “massa social”. Do mesmo raciocínio retira o conceito
de minoria que completa o conceito de massa. Dessa maneira, o entendimento da
sociologia sugere a divisão da sociedade em dois pólos que ele traduz com a
seguinte fórmula:
"As
minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A
massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas” (p. 37).
Ao identificar as “massas”,
não está falando de uma classe social inferiorizada, mas de uma classe de
homens. O “homem-massa” é uma anormalidade, uma deformação doentia que pode
ocorrer em qualquer classe. O “homem-massa” é o indivíduo que não atribui a si
mesmo um valor, e certamente não se angustia com isso, sente-se bem por ser
idêntico aos demais indivíduos. O filósofo ainda explica que as minorias
seletas não são uma classe social superior, mas grupos minoritários que agem
ao contrário das massas. Ortega y Gasset entende que a partir do momento em
que os indivíduos seletos deixam de executar suas tarefas vitais, eles passam
também a viver como “homens-massa”.
O conceito de rebelião no
título da obra não é contra políticos, mas contra o homem vulgar, contra o
“homem-massa”. As propostas sugeridas pelo filósofo são que cada indivíduo
estabeleça os mecanismos que impedem o crescimento próprio. Negar essa tarefa
é, no sentir de Ortega y Gasset, uma falsidade, uma enfermidade social.
O problema encontrado por
Ortega y Gasset neste primeiro artigo é o que ele chama de “hiperdemocracia
das massas”. A “hiperdemocracia das massas” é o fato das massas atuarem sem
leis, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos.
As massas propuseram a distanciar-se dos assuntos políticos, não discutindo e
não participando das atividades políticas, o que consolidou lideranças
conduzidas pela demagogia e pela ignorância. A lei que ocupa essa
hiperdemocracia é: “Quem não for como todo mundo, quem
não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado” (p. 41).
Em outro artigo do livro
intitulado A subida do nível histórico,
o filósofo explica que o grande sucesso do seu tempo é o acesso das massas à
vida histórica, é a criação da civilização. Por mais de dois milênios se
esforçam para edificarem uma construção comum, mas mesmo com todo esse esforço
e sucesso o homem continua vulnerável, fraco e até patológico por causa de
seus problemas e suas inseguranças. O homem não consegue viver humanamente sem
manter uma tensão criadora e precisa estar alerta aos desafios de sua época
para experimentar um desafio que o leve para frente.
A partir do momento em que o
homem não consegue dar um passo para o sucesso, ele vive problemas
psicológicos, ele não sabe executar seu talento. Ortega y Gasset entende que o
homem deve se ocupar com o que ele se identifica, caso contrário,
experimentará o fracasso, transformando-se em “homem-massa”. Cabe aos
educadores tentarem curar essa doença individual. Na passagem a seguir, Ortega
y Gasset aponta os limites da Escola:
“Nas
escolas que foram motivo de orgulho para o século passado, não foi possível
fazer mais do que ensinar às massas as técnicas da vida moderna, mas não se
conseguiu educá-las” (p. 70).
A história, a política e a
cultura revelam somente a superfície das relações humanas. A realidade
histórica é muito mais do que essas ciências revelam, é mais profunda. Para o
filósofo, consiste na pura ânsia de viver. O principal motivo que levou o
homem a afastar-se da sua condição de indivíduo, a não angustiar-se com seus
problemas, foi o fato de ele sentir que o passado se tornou pequeno diante do
presente:
“Essa
grave dissociação entre o passado e o presente é o acontecimento comum de
nossa época e nela está incluída a suspeita, um pouco confusa, que leva à
perturbação da vida nestes anos. Os homens atuais sentem de repente que
ficaram sozinhos sobre a terra; que os mortos morreram de fato; que já não
pode ajudar-nos. O resto do espírito tradicional se evaporou. Os modelos, as
normas, as linhas de conduta já não nos servem. Temos que resolver nossos
problemas sem a colaboração efetiva do passado, em pleno atualismo – sejam
eles de arte, de ciência ou de política” (p. 58).
Até o momento podemos tirar
algumas conclusões da explicação dada pelo filósofo. A primeira é que a
democracia liberal é a melhor forma de organização política que nossa cultura
criou, mas foi a aplicação a civilização da técnica. A segunda é que essa
forma de vida não é a melhor maneira de viver. E, por último, que é perigoso o
retorno a formas de vida próprias dos séculos passados.
Sendo assim, a democracia
liberal e a técnica foram unidas e são as formadoras da geração que se seguiu
no início do século XX. Trata-se de uma nova forma de vida. Criou-se um novo
ambiente para a convivência social regida por três princípios: a democracia
liberal, as experiências científicas e a sociedade industrial.
O filósofo conclui que esses
elementos não foram inventados no século XIX, mas nos séculos anteriores. O
século XX deu ao movimento rumos próprios. A mudança experimentada fez com que
os homens acreditassem que a vida é sinônimo de limitação, obrigação,
dependência, ou seja: pressão. O homem comum entende que o mundo da técnica é
o natural. O mundo técnico aparece, para ele, como uma criação perfeita da
Natureza:
“Nenhum
ser humano agradece a outro o ar que respira, porque o ar não foi fabricado
por ninguém: pertence ao conjunto do que está-aí, do que dizemos é
natural, porque não falha. Essas massas mimadas são bem pouco inteligentes
para acreditar que essa organização material e social, posta à sua disposição
como o ar, é da mesma origem que este, já que, pelo visto, também não falha, e
é quase tão perfeita como a natural” (p. 77).
A vida, para o filósofo, não é
mais que lidar com o mundo. Para Ortega y Gasset, a vida é o jogo de
possibilidades ilimitadas e independentes de outras pessoas. Com tal
afirmativa, retirada do artigo Vida nobre e vida
vulgar, ou esforço e inércia, entendemos que o filósofo
complementa aquilo que traduz na segunda parte de sua fórmula: e se não salva
a circunstância, não salvo a mim também:
“Viver é
sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter que considerar o que nos limita, a
voz novíssima grita: Viver é não ter limite algum; portanto, é abandonar-se
tranqüilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e,
em princípio, ninguém é superior a ninguém” (p. 79).
Nessa passagem acima fica
claro o que o filósofo chama de esforço que, para a elaboração de sua
Filosofia Política, possui uma significado importante para tratar suas
condições vitais. Aos olhos do “homem-massa”, o viver não possui essa direção,
ele apenas espera elevar seu padrão de vida. Outro assunto importante é o
exame do conceito de nobreza. Nobreza, para ele, é “sinônimo
de vida dedicada, sempre disposta a superar a si mesma, a transcender do que
já é para o que se propõe como dever e exigência” (p. 82). Dessa forma,
Ortega y Gasset distingue a vida nobre da vida vulgar. Feita essa distinção,
podemos passar para o artigo Por que as massas
intervêm em tudo e por que só intervêm violentamente.
Nesse artigo surge plenamente
justificado o título da obra. A rebeldia das massas é a obliteração das almas
medíocres e constitui um gigantesco problema para a humanidade. Para tratar
esse assunto, o filósofo distingue o tolo, que é o sujeito que não desconfia
de si, não indaga sobre seus problemas e nem percebe a vida que está em torno.
Já o perspicaz, diversamente, “surpreende a si mesmo
(...) e se esforça para escapar iminente da
tolice, e esse esforço consiste na inteligência”(p. 86). Então, para
que haja uma cultura, é preciso que haja homens inteligentes, esforçados,
senão toda a criação humana até aqui edificada se transforma numa barbárie. A
barbárie é a rebelião das massas, na qual os homens passam a não mais dar
conta de si, não mais recorrem à civilização e se aprofundam numa estagnação
de valores.
Ortega y Gasset menciona
alguns movimentos que aconteceram na Europa que exemplificam o que ele entende
por estado de barbárie. Tais movimentos são o sindicalismo e o fascismo:
“Entre
as espécies de sindicalismo e de fascismo aparece pela primeira vez na Europa
um tipo de homem que não quer dar razão e nem quer ter razão, mas, que
simplesmente, mostra-se decidido a impor suas opiniões. Aqui está o novo: o
direito a não ter razão, a razão da sem razão” (p. 89).
Assim, o homem que aí se
encontra quer opinar, mas não aceita as condições de opinar, que é o
conhecimento dos pressupostos históricos, dos fatos que levaram as nações a
prosperarem e a declinarem. Em todas as épocas, conta o filósofo, quando as
massas atuaram na vida pública não discutiram tal circunstância. Nunca
sentiram que a civilização é antes de tudo vontade de conviver, enquanto a
barbárie é a tendência da dissociação. Para Ortega y Gasset, a melhor forma
para solucionar esse convívio é a democracia liberal. Segundo ele, esse modelo
de democracia consiste na maior representação da vontade de conviver. O
liberalismo é o direito político que limita o poder público porque outorga à
minoria o direito da maioria.
Ao examinar o artigo seguinte,
Primitivismo e História, entendemos
que o “homem-massa” entende a civilização como algo natural. Os valores
essenciais da cultura não o interessa, ele não é sensível a eles. Isso
aconteceu devido ao processo de reconstrução da Europa depois da Primeira
Grande Guerra. “O corpo vulgar da Europa central não
quer pô-los sobre os ombros” (p. 105). O homem fracassa por não
acompanhar o progresso de sua própria civilização. Nos debates políticos,
homens cultos ainda formulam e teorizam seguindo os conceitos já inoperantes
que em tempos passados serviram para solucionar problemas menos sutis. Nesse
sentido, Ortega y Gasset equilibra no mesmo nível o avanço da civilização com
os problemas vividos pelas gerações. Na medida em que a civilização avança,
mais problemas surgirão e soluções mais complexas serão exigidas. O problema
ainda mais grave da época em que viveu o filósofo foi o abandono das ciências
humanas. O dirigente político, por exemplo, pouco sabe de história e toda sua
política está calculada para evitar o erro numérico. Esses mesmos dirigentes
não entenderam que o passado histórico quando esquecido elimina a “cultura
histórica”, ou seja, a construção humana do passado, transformando o Estado em
barbárie.
Ortega y Gasset diz que o
“homem-massa”, que é pouco exigente, acaba conduzido por pessoas medíocres,
extemporâneas e sem grande memória, ou seja, sem consciência histórica, que se
comportam como se o passado tivesse acabado. Não se trata de discutir o credo
das pessoas em ideais marxistas, mas em entender que os dirigentes da Rússia
em 1917 não tiveram preocupação em corrigir os erros antigos. Não houve uma
preocupação com a vida humana. A frase com a qual o filósofo define o que é
“Revolução” é simples e direta: “A Revolução devora seus
próprios filhos” (p. 107). O político genial, considerado pelo
filósofo, é aquele que leva os professores de História a ficarem loucos, “ao
verem que todas as leis de sua ciência caducaram, foram derrogadas e
pulverizadas” (p. 107).
Ortega y Gasset admite que é
preciso superar o liberalismo do século XIX, mas não com nenhum tipo de
antiliberalismo. O liberalismo já é uma inovação da vivência do homem.
Antiliberal era que os homens faziam antes do advento do Liberalismo. Ser
anti é, para o filósofo, uma postura equivocada que não levará a superar
os problemas então vividos:
“Quem se
declara anti-Pedro, traduzindo numa linguagem positiva, nada mais faz que se
declarar partidário de um mundo onde não exista Pedro. Pedro ainda não tinha
nascido. O antipedrista, em vez de se colocar depois de Pedro, coloca-se antes
e retrocede toda a película à situação passada, no fim da qual se encontra
inexoravelmente a reaparição de Pedro” (p. 108).
Para o filósofo, os problemas
da Europa não serão solucionados se não forem administrados por pessoas
“contemporâneas” do seu tempo.
Numa boa organização das
coisas públicas, a massa não atua por si mesma. As massas estão no mundo para
serem representadas e dirigidas. Quando, numa sociedade, a massa atua por si
mesma, ela só age de uma única forma: lincha.
“Não é
totalmente por acaso que a Lei de Linch é americana, já que os Estados Unidos
são, de certo modo, o paraíso das massas. Nem muito menos se pode estranhar
que agora, quando as massas triunfam, triunfe também a violência e se faça
dela a única ratio, a única doutrina” (p. 128).
Essa é a atitude a que as
massas recorrem para implantar sua justiça. E, a partir da defesa dos homens
da violência nasce o Estado. No artigo O maior
perigo, o Estado, Ortega y Gasset explica que o Estado de sua
época é o produto mais visível e notório da civilização. Entretanto, o grande
erro está naqueles homens que não refletem ao dizer e repetir: “O Estado sou
eu”. E a massa embarca nessa idéia sem perceber o erro que isso causa para uma
nação. Os homens que assim pensam acabam massacrando as minorias que não
pensam como eles:
“O
Estado só é massa no sentido em que se pode dizer que dois homens são
idênticos porque nenhum deles se chama João. O Estado Contemporâneo e a massa
só se coincidem em ser anônimos. Mas acontece que o homem-massa pensa, de
fato, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a
qualquer pretexto, a esmagar com ele qualquer minoria criadora que o perturbe
– que o perturbe em qualquer campo: na política, nas idéias, na indústria”
(p. 132).
O resultado dessa tese é fatal
para a vida. Os homens passarão a viver em função do Estado, tornando-se
máquinas do governo. Após certo tempo trabalhando como máquinas, os homens se
tornarão como máquinas: enferrujados, o que é muito pior que a morte orgânica,
completa Ortega y Gasset.
No ano de publicação da obra,
Ortega y Gasset declara que tanto o fascismo como o comunismo são dois
potenciais fabricantes de “homem-massa” e que o maior perigo que a Europa
passaria seria as massas se renderem a essas formas políticas. Numa explicação
do filósofo, a Europa acabou ficando sem moral quando intentou a delicada
operação de mandar no mundo, de estabelecer normas válidas que dão uma
caricatura da vida coletiva. Neste livro, Ortega y Gasset também dá início à
sua investigação sobre os processos de nacionalização e união dos países
europeus. Esse processo consiste em identificar as diferenças existentes entre
as sociedades e o Estado. A partir dessa investigação, ele entende que os
problemas de cada Estado ultrapassam suas fronteiras, e por isso têm a
necessidade em solucioná-los em conjunto. Está claro que Ortega y Gasset
postula desde 1930 a formação da União Européia.
A Rebelião
das massas