Nos dias atuais,
freqüentemente, ouvimos discursos que tratam das vantagens e das desvantagens
sobre o ensino da História da Filosofia para jovens estudantes. Os discursos
são apresentados numa tentativa de demonstrar a importância em despejar nas
cabeças dos estudantes todo o legado do passado filosófico, reduzindo o ofício
do amor ao saber, numa simples retilínea com sucessão de idéias mortas.
Sabemos que é importante integrar o passado filosófico ao exercício de vencer
os desafios contemporâneos. Nessa tentativa de vencer os desafios
contemporâneos consiste o Filosofar. Para articular a História da
Filosofia com o Filosofar, pensamos com o filósofo espanhol José
Ortega y Gasset (1883-1955) que trabalha esta questão em seu livro Origem e
Epílogo da Filosofia, cuja organização se realizou com ensaios
introdutórios para o livro História da Filosofia de seu amigo Julían
Marías.
Para Ortega y Gasset, o
passado filosófico constitui um emaranhado de idéias que se organizam numa
série dialética. A série dialética é a apresentação das idéias que se opõem,
mas que são dependentes entre si, e impulsiona uma dinâmica que move a
história. O ponto de partida para o exercício do pensar é analisar o objeto
que chega aos sentidos, mas não se esgota nos sentidos. Para o filósofo, ao
analisar um objeto estamos empregando uma reflexão a fim de conceber um
aspecto da realidade. Esta forma analítica de pensar é a primeira instância
do pensamento.
Ao pensar em algo somos
forçados a pensar nas coisas que estão à sua volta. O “pensar em torno” é o
que acrescenta o pensamento analítico inicial e, por isso o complica porque
força-nos a pensar nas circunstâncias de algo. Ao pensar no “em torno” estamos
pensando nas circunstâncias. A dialética é a força que nos impulsiona e nos
mantém pensando, considerando sempre o objeto e as coisas à sua volta. A
obrigação que temos em assumir a tarefa de pensar é dada pela realidade vital,
porque esta realidade não pode ser negada, pois é experimentada e vivida.
O primeiro aspecto que a
análise de algo nos oferece é a apresentação de uma multidão de opiniões que o
cerca. Mas sobre estas opiniões empregamos a elegância em saber escolher o que
melhor se adapta para o nosso juízo. Para Ortega y Gasset, a palavra
“elegância” conota o sentido latino “eligentia”, que ao adicionar ao
prefixo “int” obtemos “inteligentia”, que significa o hábito de
escolher. O termo “elegância” é um dos principais elementos da ética
orteguiana. Por elegante entende-se o homem que nem faz, nem diz qualquer
coisa, mas faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso dizer.
Para Ortega y Gasset, a
fisionomia do passado é constituída por ruínas. Estas ruínas são os erros que
nos foram legados pelas diferentes gerações que viveram os problemas de sua
época. Assim, cada filosofia leva em conta os erros de outras teorias
filosóficas esperando não repeti-las, pois como diz o filósofo:
"Cada
Filosofia aproveita as falhas das anteriores e nasce, certa de que, pelo menos
nestes erros não cairá"
(Origem e Epílogo da Filosofia. p.160).
A verdade é difícil a
ser alcançada, porém o erro é facilmente encontrado. Ortega y Gasset, entende
que o erro nos aparece naturalmente. No entanto, não existe um erro absoluto,
porque mesmo do erro pode-se extrair algo positivo. O termo “cético”, por
exemplo, surgiu no auge da cultura grega e não pode ser aplicado a aqueles que
“não acreditam em nada” como pensam algumas pessoas. Os céticos eram “homens
terríveis” porque não deixavam as pessoas viverem sem questões. Para Ortega y
Gasset, os céticos “extirpavam a crença nas coisas que pareciam mais certas” (Idem.
p. 163). O sentido original do termo cético é a ocupação em exaurir as
verdades do vulgo, a fim de colocá-las em apreço para análise e reflexão, e
enfim coloca-las em dúvida. Ao questionar, os céticos se empenha em refutar,
isso funciona como um choque, porque demonstra que a verdade ordinariamente
assumida é insuficiente para explicar o que se propõe.
Para explicar os
problemas atuais, deve-se percorrer todo o passado filosófico, com uma visão
arqueológica. Ortega y Gasset explica que a Filosofia atual tem como
referência a Filosofia anterior. É como percorrer um itinerário mental que
todo aquele que se propõe a pensar a realidade terá que seguir. O ato de
percorrer simplesmente o passado filosófico sem identificá-lo com os problemas
atuais das sociedades, consiste numa tarefa da mente adestrada. Esta mente
adestrada, percorrerá a série dialética do pensamento numa educação filosófica
sem o esforço de refletir, mas como uma ginástica de cultivar a memória. Para
refletir o passado filosófico buscando fundamentos para explicar a sociedade
contemporânea não basta abandonar os erros precedentes, mas integrá-los a fim
de edificar um conceito novo.
Para o filósofo
espanhol, o passado filosófico nos deixou idéias que não são as mesmas que
temos atualmente. Isso significa que um segundo olhar sobre algo revela-nos
detalhes que primeiramente não percebemos. A cada olhar o objeto deixa-nos
escapar alguma revelação:
"Proponhamos
ver uma laranja. Primeiro, nós vemos dela apenas uma face, um hemisfério e
depois temos que mover-nos e ir vendo hemisférios sucessivos. A cada passo, o
aspecto da laranja é outro que se articula com o anterior quando este já
desapareceu, de modo que nunca vemos junta a laranja e temos que contentar-nos
com vistas sucessivas"
(Idem. p. 182).
Ortega y Gasset explica
que mesmo Platão (427-347 a.C.) quando se refere à idéia como algo
totalizante, na verdade busca exprimir a noção de um aspecto da realidade.
Isso significa que, não existe nada que possa ser apreendido em sua
totalidade. O modo de o homem ver as coisas é sempre um modo de apreender um
determinado aspecto. A verdade é sempre perseguida e nunca alcançada. A
verdade é o resultado da adição dos vários aspectos que conseguimos apreender
da realidade. Por isso, há a necessidade de estabelecer sempre um processo
dialético como integração para fundamentar um conceito novo.
Ortega y Gasset não dá
ao termo “dialética” o sentido adotado pelos românticos alemães, que em seus
sistemas declarava uma grande caça a verdade em nome do Absoluto. O pensador
entende o termo “dialética” como um conjunto de fatos mentais que resultam ao
se pensar a realidade. A realidade mostra a soma integral de seus aspectos e
numa operação dialética podemos: parar, prosseguir, conservar e integrar,
nunca deixando de refletir o presente.
O passado filosófico
nos chega pelos títulos dos livros e o nome dos seus autores. Os títulos e os
nomes dos autores são apenas uma referência aos problemas que eles tenta
explicar em suas épocas. Para tentar explicar os problemas que afligem sua
geração, os autores precisam aplicar a “alethéia”, que é o nome
primogênito da Filosofia.
Por “alethéia”
entende-se descobrimento ou revelação. A Filosofia, para Ortega y Gasset, é “uma
faina de descobrimento e decifração de enigmas que nos põe em contato com a
própria e nua realidade” (Idem. p. 210). A “alethéia” é a
própria verdade revelada.
O que fazia o homem com
sua mente antes de pensar o mundo? Para Ortega y Gasset, todo pensar possui um
subsolo, um solo e um adversário. Antes de o homem iniciar seu pensamento
sobre o mundo existiu algum subsolo que o suportou e o impulsionou a pensar.
No passado grego, esse suporte e impulso foram à falta de credibilidade nas
explicações divinas.
Ao filosofar o homem
exercita sua liberdade. Para Ortega y Gasset, a liberdade não brota da ética e
nem da política porque estas instâncias não são a raiz da vida. A liberdade é
a escolha entre as carências de necessidades vitais. O filósofo explica que o
círculo das possibilidades é bem maior que o das necessidades. E a vida é
pobreza, portanto necessidades. A vida é sempre insegura. A dúvida é o meio
pelo qual o homem sai de suas necessidades. O filósofo René Descartes
(1596-1650) ensina que o método é a reação a uma dúvida, e foi nesta
perspectiva que Ortega y Gasset explica que para suprir as necessidades
deve-se recorrer à dúvida porque ela é postulação de um método.
A mais antiga divisão
do pensamento humano acontece entre o sagrado e o profano. O deus que aparece
nos tempos remotos da Grécia não é um deus religioso, mas um deus conceitual.
Este deus conceitual é produto da racionalidade, que consiste na livre escolha
para buscar um novo fundamento. A essa livre escolha dá-se o nome de
Filosofia. A tonalidade própria do pensador é o insulto ao vulgo, pois é sua a
missão de possuir idéias opostas à opinião pública. A preocupação dos
filósofos gregos era discutir sobre eles mesmos e sobre a vida na polis.
A palavra “Filosofia” devia circular neste ambiente para significar a ocupação
com todas as novas disciplinas – desde a Filosofia Natural até a Retórica. A
Filosofia é uma tentativa de explicar o mundo, interagindo o passado com o
presente e ampliando os seus horizontes nas mais diversas disciplinas. Toda
descoberta científica, toda verdade nos põe numa visão repentina e imediata de
um mundo que até então desconhecíamos e com o qual não contávamos. O diálogo
filosófico nos impulsiona para novas descobertas.