A primeira parte
intitula-se Particularismo y Acción Directa e a segunda parte
intitula-se La Ausência de Los Mejores.
No prólogo, Ortega adianta
que o objetivo principal desta obra é definir a enfermidade da Espanha, bem
como a dissolução da sociedade espanhola. No entanto, ao verificar os
motivos desta fragmentação o filósofo observou que se tratava de uma crise
comum do continente europeu. O filósofo explica que não há na Espanha uma
vértebra capaz de unir os homens num projeto comum.
O primeiro ensaio do livro
dedica-se à análise de Ortega sobre os aspectos históricos de uma nação como
um vasto sistema de incorporação. Para explicar esse conceito, o autor
utiliza o exemplo do povo romano cuja sociedade foi claro o surgimento, o
apogeu e o seu declínio. O povo romano obteve êxito em sua civilização
porque não preocupava em incorporar um outro povo pela expansão de um núcleo
central, mas por adaptar-se às diferentes culturas que entrou em contato. Da
mesma forma, o filósofo indica que é um erro supor que o nascimento da
política deve-se à expansão da família conforme explicam algumas teorias
sociológicas. O processo de incorporação não significa dilatação de um
núcleo, mas a organização de muitas unidades sociais preexistentes numa nova
estrutura.
Para incorporar os diversos
povos, a sociedade romana, teve que exercer a tarefa do saber mandar. Essa
tarefa consiste em nacionalizar um povo, pois essa tarefa reúne a habilidade
de convencer e de obrigar os seus cidadãos a assumirem um projeto comum. E
essas foram as duas habilidades da sociedade romana que a tornou uma potente
civilização. Ortega explica que nesse esforço de incorporação o poderio
militar aparece em uma posição secundária, pois não é pela força que um povo
sente em sua vitalidade um projeto comum, mas pela necessidade em ter um
projeto. O filósofo considera a necessidade como fundamento de um projeto
que impulsiona a saída de uma vida contemplativa para uma vida ativa. Nos
parece ser um dos aspectos de sua filosofia raciovitalista considerando que
o homem deve agir seguindo seus projetos e sua vocação.
Num ensaio posterior,
intitulado Tanto Monta, Ortega refuta a fórmula que sugere a unidade
como a causa e a condição para fazer grandes coisas. Porém, sua refutação
inverte a ordem desta fórmula que diz: “A idéia de grandes coisas pode fazer
a unificação nacional” (p. 84). E o sintoma mais grave identificado pelo
filósofo é que falta ao povo espanhol essa idéia de grandes coisas a fazer.
Por isso, o título do livro España Invertebrada, ou seja, não há na
Espanha uma vértebra, um sentido que seria vital para a consolidar a nação.
O primeiro inimigo
fundamental que interrompe a consolidação da nação espanhola é o
particularismo. Para Ortega, particularismo significa a desintegração na
qual as partes do todo passam a viver como todos à parte. A essência do
particularismo significa que cada grupo deixa de sentir-se como parte, e em
conseqüência deixa de compartilhar os sentimentos dos demais. O filósofo
compreende que para combater o particularismo, a sociedade espanhola deveria
manter viva em cada classe ou profissão a consciência de que existem em
torno deles muitas classes ou profissões cujas cooperações necessitam serem
respeitadas, ou até mesmo, conhecidas.
O particularismo
apresenta-se sempre como uma classe que produz a ilusão intelectual de crer
que as demais classes não existem. Para Ortega, uma nação é uma comunidade
de indivíduos e grupo que contam uns com os outros. Mesmo numa ação de
discordância com outrem verificamos sua importância para nós. Entretanto, o
particularismo introduz na política homens poucos virtuosos que mandam
seguindo suas vontades. A essa atitude, o filósofo chama de ação direta. Por
ação direta entende-se a imposição de um grupo sobre o outro quanto à sua
vontade, desejo e interesse. Ao empregar a ação direta o grupo dominador
considera que as demais classes não possuem o direito de existirem, passam a
considerá-las como parasitas, isto é, anti-sociais. A ação direta é uma
tática que se deriva do particularismo, ou seja, do não querer contar com os
demais.
Na segunda parte da obra,
Ortega explica que o particularismo e a ação direta existem porque na
Espanha não há homens capazes de evitá-los. Existe na Espanha a massa humana
que é uma realidade histórica européia e donde nascem os problemas
políticos. As massas são um caso extremo da “invertebración”
espanhola. Nas palavras de Ortega:
"Essa
miopia consiste em crer que os fenômenos sociais, históricos, são fenômenos
políticos, e que as enfermidades de um corpo nacional são enfermidades
políticas. Agora bem: o político é certamente a escapatória, o contorno do
social. Por isso é o que nos salta primeiro à vista"
(p. 93-94).
Isso significa que o
filósofo entende que quando o problema é só a política não significa que a
nação esteja muito mal. Porém, quando o problema é a sociedade míope o
problema é mais extremo. Quanto à Espanha, sua enfermidade pública é bem
mais grave que qualquer moralidade pública. A enfermidade da Espanha é o
império das massas. Eis o que Ortega nos diz sobre este império:
"Eu
me refiro uma forma de domínio muito mais radical, mais profunda, difusa,
onipresente e não de uma só massa social, e sim de todas"
(p. 95).
O problema da Espanha está
na raiz de sua sociedade. No entanto, não pode construir numa sociedade um
ideal ético. Para Ortega este foi o desespero do século XVIII. Só
deve-ser o que pode-ser e só pode-ser o que move dentro
das condições do que é. Para Ortega, o erro da idade moderna foi supor que o
homem pode construir um ideal moral pela consciência. Neste ponto, Ortega
combate o idealismo com o seu raciovitalismo explicando que o homem é sua
ação e seu vigor. O Raciovitalismo compreende o homem como um ser histórico
e por isso sempre se empenha em construir e realizar seu projeto vital.
O princípio para a
convivência do povo espanhol é a docilidade. A docilidade deve supor a
obediência. A docilidade tem a vantagem não só de elucidar a coesão de uma
sociedade como também os motivos que levaram a sua decadência. O filósofo
explica que a docilidade é o principal instrumento para diagnosticar e
cuidar da patologia que assola a nação. E o diagnóstico identificado por
Ortega é a ausência dos “melhores”.
O que isso quer dizer?
Para Ortega, o povo espanhol
só consegue exercer funções elementares da vida. Assim, o popular só sabe
ser anônimo e por isso falta na história espanhola a criação. Para Ortega a
primeira desgraça da Espanha foi não haver o feudalismo em sua história. Não
havendo o feudalismo como em outras nações européias o povo espanhol não
sentiu a necessidade de tornar-se modernos. Assim, todas as modificações e
realizações necessárias para a consolidação da Idade Moderna caíram na
Espanha como algo estranho. Na verdade, o povo espanhol não sentiu a
necessidade em modificar suas circunstâncias o que é o núcleo da filosofia
raciovitalista de Ortega.
As colonizações que a
Espanha sofreu em sua formação incentivaram em sua apatia. Diferentemente do
povo romano que para organizar um povo funda o Estado, o povo germano
utiliza-se da força bruta para conquistar o território e fazendo-se
senhores. Entretanto, foi esse espírito germânico que transmitiu ao povo
espanhol que quem deve mandar é quem pode mandar.
Ortega destaca em seu texto
que na Espanha pode-se dividir em três estratos os erros de seu país que o
impossibilita em firmar-se como nação coesa. São elas: a primeira
superficial que consiste nos erros e abusos dos políticos, defeitos da forma
de governo, fanatismo religioso etc; o segundo estrato consiste numa grave
enfermidade que é o particularismo e sua conseqüência a ação direta e; o
terceiro estrato que consiste a raiz de todos os problemas é a alma do povo
espanhol que possui o espírito de valentia e força bruta.
Em suma, Ortega encontra a
raiz dos problemas da Espanha o espírito de conseguir alcançar os objetivos
pela força física. Certamente, este é o que torna a Espanha Invertebrada,
isto é, sem projeto comum para os seus cidadãos. O livro España
Invertebrada possui uma discussão atual da sociedade de massa e do
marasmo do povo em discutir os projetos ou rumos de sua nação. Ortega
vale-se do raciovitalismo para indicar que falta ao povo entusiasmo, vigor e
amizade para enfrentar os problemas que assolam o seu país.