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A FILOSOFIA
POLÍTICA DE ORTEGA Y GASSET
Danilo Santos Dornas
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Resumo
Palavras-Chave
Considerações Iniciais
2.
Como se pensava a educação nos tempos de Ortega y Gasset?
3.
A vida espontânea como processo de adaptação
4.
A forma psíquica inadaptada e a pulsação vital como sentimento de vitalidade
5.
A importância dos mitos na educação fundamental
6.
O ato de estudar na pedagogia raciovitalista
7.
A educação para os jovens
8.
A educação para o futuro
Considerações Finais
Referências
bibliográficas
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Neste trabalho, examinamos
quais são os aspectos da Filosofia da Educação segundo o pensador espanhol
José Ortega y Gasset (1883-1955). Adicionalmente, procuramos compreender
qual a postura do educador e do educando nesse modelo teórico.
Palavras-Chave:
Filosofia, Educação, Raciovitalismo.
A pedagogia é a ciência que
investiga os pressupostos teóricos da educação. Para pensá-las valemos-nos
das indicações do pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Ele
analisa os problemas sociais que afligem sua geração. Desse modo, se depara
com as idéias educacionais que necessitam de uma investigação específica.
Para Ortega y Gasset a ciência pedagógica não pode se resumir ao assunto e
ser transmitido, mas precisa instaurar uma postura crítica diante da
situação sociopolítica e cultural, alterando-a para melhor.
Nosso trabalho tem por
objetivo examinar os fundamentos da pedagogia raciovitalista. Além disso,
buscaremos compreender como os estudantes devem proceder dentro desse modelo
educacional que lhes permitirá crescer como seres únicos, equilibrados e
criativos. Indocaremos ainda como o educador, seguindo as indicações da
pedagogia raciovitalista, deve aprofundar os fundamentos das teorias
pedagógicas do século XX, porque um educador tem que ser mais que um
regulador ou transmissor daquilo que é preciso aprender numa certa
circunstância. O educador deve ser capaz de atualizar as potencialidades do
educando.
Nos últimos dois anos, nós
nos dedicamos ao estudo de alguns aspectos da Filosofia de Ortega y Gasset.
Este trabalho, faz parte de um projeto maior sobre a Filosofia da
Educação que estamos desenvolvendo com o apoio do Conselho Nacional de
Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico, nos Programas de Bolsas
de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), sob a orientação do Prof. Dr. José
Mauricio de Carvalho.
As referências principais
para a realização deste trabalho foram as Obras Completas, de José
Ortega y Gasset, editadas em Madri, pela Alianza. Além disso, valemo-nos dos
seis números já editados da Revista de Estudios Orteguianos e das
obras de Margarida I. A. Amoedo intitulada José Ortega y Gasset: a
aventura filosófica da educação, editada em Lisboa, pela Estudos Gerais
e de José Mauricio de Carvalho intitulado Introdução à Filosofia da Razão
Vital, editada em Londrina, pela CEFIL.
O estudo da obra orteguiana
não pode ser realizado em nossos dias à parte do que sobre ele escreveram os
principais comentadores. Entre os estudos mais conhecidos queremos
mencionar: Acerca de Ortega, de Julián Marías; A Gratuidade ética
de Ortega, de Leopoldo Gonzáles; Raison et vie, de Paul Bocel.
Além desses autores consideramos as contribuições para o tema, dos
orteguianos brasileiros: Eis as obras mais significativas: Ortega y
Gasset, a aventura da razão; A pátria descoberta; Viver é
perigoso; Discurso sobre a violência; O Ocidente e sua sombra;
O Valor da Vida; de Gilberto de Mello Kujawski. A presença da
moral na cultura brasileira e outros ensaios; Metamorfoses da
Liberdade; A idéia de Liberdade no século XIX; de Ubiratan
Macedo. Além desses referimos às obras de Nelson Saldanha: Filosofia,
povos, ruínas; Historicismo e Culturalismo e Pela Presença do
Humano.
1. A influência de Herbart
Ortega y Gasset escreve seus
trabalhos sobre pedagogia influenciado pelo pedagogo Juan Frederico Herbart
(1776-1841). O ensaio herbartiano que influencia
Ortega y Gasset se intitula Pedagogia General derivada del fin de la
educación. Neste texto, Ortega y Gasset
explica que aquilo que chama sua atenção é o estudo da atividade educativa
espontânea num regime científico.
Com este ensaio de Herbart a
pedagogia torna-se uma atividade prática. Dentre as teses principais ali
propostas destaca-se a que o mestre é obrigado a valer-se das evidências
científicas para ensinar. Ortega y Gasset critica esse entendimento de
Herbart, que influenciou os métodos educacionais do seu tempo. Eis o que
pensa:
"Não
se exige que seja um físico para ensinar física, nem historiador para
ensinar história. A única ciência especial que se exige para ensinar é a
pedagogia."
(O.C. VII; p. 266).
O que tornou a pedagogia uma
atividade prática foi acreditar que seu significado é oferecer soluções para
os problemas técnicos do homem. Para uma discussão das teses filosóficas que
influenciaram o pensamento pedagógico de Herbart, Ortega y Gasset refere-se
à ética que determina os objetivos da educação e à psicologia que regula os
métodos a serem aplicados. Vejamos, a seguir, o que diz a respeito.
A psicologia recebe uma aplicação
efetiva no sistema pedagógico. O “eu” visto por Herbart não é sinônimo da
subjetividade moderna, mas traduz um complexo de representações. Deve-se
observar que existe na pedagogia uma preocupação em demonstrar como é
possível a variedade do fenômeno psíquico na unidade do “eu” por vias
relacionais.
Este entendimento aponta para
consciência moral e estética. Para Ortega y Gasset, a pedagogia guiada pelos
ditames desta psiqué reflete o temperamento do século XVIII, cujos
valores predominantes são: a serenidade e o racionalismo que culminaram num
intelectualismo psicológico.
Já a Ética de Herbart é importante
por outras razões. Para Ortega y Gasset, a ética de Herbart segue um caminho
oposto ao seguido por Immanuel Kant (1724-1808). Esta diferença reside no
porpósito de Herbart em tratar a ética como uma fonte de ações boas. O “bem”
é uma qualidade que força nossa aprovação, enquanto o “mal” força nossa
reprovação. Isso significa que, para a concepção ética de Herbart cada homem
tem a capacidade para distinguir o “bem” e o “mal” e essa capacidade não se
fundam na quantidade de conhecimento.
"O
valor não se conhece, se reconhece, se aceita. Não é a razão, a ciência que
podem dizer quais os valores são bons (positivos) e quais mals (negativos):
o órgão para os valores é uma peculiar sensibilidade de aprovação ou
desaprovação."
(Idem. p. 286).
Perceber o “belo” da realidade
física é, para Herbart, um capítulo da ciência estética da sensibilidade.
Desse modo, a operação científica transcreve os ditados do real em
expressões conceituais. Para Ortega y Gasset, esta forma de tratar o assunto
sugere que o cientista deve perceber a realidade que está a sua volta para
encaminhar os estudantes à maturidade. A maturidade se caracteriza pela
capacidade de distinguir os valores verdadeiros e falsos.
2.
Como se pensava a educação nos tempos de Ortega y Gasset?
José
Ortega y Gasset apresenta suas idéias pedagógicas contrapondo-as às idéias
educacionais então vigentes. Naquele momento as teorias da educação
consagram o saber prático. Assim, verificamos que o principal problema
educacional de sua geração é a conversão dos conceitos educacionais nos
termos das ciências técnicas.
O
problema da educação, nesse caso, é um problema de eliminação. Eliminação
significa a capacidade de o homem selecionar o que é essencial para sua
vida, eliminando o que não é. As funções essenciais que o homem deve
perseguir são de ordem psíquica e é essa ordem que o distingue de uma
máquina.
As
máquinas são construídas para realizar algumas tarefas que cansam as
pessoas. Para Ortega y Gasset, as máquinas trabalham em limitadas condições
e reduzem a atividade humana ao mínimo, impedindo distinção entre o vital e
o operacional. Para o filósofo, é necessário distinguir a função vital e o
substituto dela. Eis o que diz nos Ensayos Filosóficos:
"O
uso da bicicleta é mero mecanismo e, portanto, menos vital que o uso do pé,
tampouco este representa a vitalidade essencial, também é um mecanismo em
comparação com outras funções biológicas primárias."
(O.C.
II; p. 276).
Ortega y
Gasset entende que ensinar o homem pelos modelos funcionais, como as teorias
mecânicas então predominantes, não esclarece as realidades vitais do homem.
Quais são elas? Para o filósofo, são três: 1) a realidade mecânica ou
técnica, que em seu conjunto chamamos de civilização e correspondem a montar
uma bicicleta; 2) as realidades culturais do pensar científico, que se
inserem numa vitalidade psíquica dentro de causas normativas, e é com esta
que a pedagogia da razão vital deve se preocupar para que haja a capacidade
do homem em eliminar o que é desinteressante de sua vida; e 3) os ímpetos
originais do psiqué, como as emoções. Essas três realidades
distinguem os homens, mas são as raízes da existência pessoal. O erro das
concepções pedagógicas de sua época foi supor que ensinando técnicas ao
indivíduo iria dotá-lo de visão científica e de uma inteligência
inquestionável.
3. A vida
espontânea como processo de adaptação
Ortega y
Gasset, no ensaio intitulado Biologia y Pedagogia, explica que a
missão da escola é preparar o homem para a vida. Para isso, ele completa, as
escolas precisam ensinar a educação cultural e a civilização para
constituírem um instituto que permaneça idêntico desde os tempos remotos e
estimular a criatividade para o educando enfrentar os problemas do futuro.
Para o filósofo, é mais urgente e necessário preparar o homem para nossos
desafios do que para repetir técnicas.
O ensino
das técnicas é adequado apenas para quem quer se especializar numa função
que não seja essencial para sua vida. Ortega y Gasset explica que o ensino
técnico é a principal forma de educar o homem de sua geração. A geração que
antecedeu a sua preocupou-se com a exploração de minerais e, assim, com um
objetivo limitado, não tinha um olhar mais aguçado para o futuro. Também
ficou sem função a possibilidade de admirar ou contemplar o mundo, que está
na raiz de todo conhecimento humano.
O estudo
da realidade principia com um impulso inicial que é a admiração. Ortega y
Gasset nos lembra que a admiração fez mover a Filosofia desde suas origens
gregas. O filósofo conclui que a admiração no povo grego nasce não só da sua
cultura, mas também do desejo de riqueza, glória e sabedoria. Uma pedagogia,
para ter sucesso, tem que sistematizar a vitalidade espontânea dos
educandos. Para realizar essa tarefa, é necessário analisar, equilibrar e
corrigir as deformações que surgiram na história.
Ortega y
Gasset entende que o homem não tem natureza, mas história. Por isso,
contrapõe suas teses educacionais às de Jean Jacques Rousseau (1712-1778),
para quem a vida espontânea deve ser negada e a vida primitiva, valorizada.
Entendemos que tratar o homem primitivo como selvagem, como fez Rousseau,
significa fazer a distinção entre homem selvagem e homem civilizado a partir
dos recursos técnicos que cada um dispõe para a sobrevivência. E isso
consiste em admitir o progresso contínuo como processo único de construção
do saber humano. Porém, essa teoria “progressista” não explica porque a
origem da civilização aconteceu quando os homens primitivos sentiram a
necessidade de organizar-se em comunidade.
Ao
contrário do que entende Rousseau, Ortega y Gasset diz que a educação nunca
será uma ficção da natureza. O filósofo espanhol entende que entre os anos
de 1850 e 1900, os pensadores definiram que a vida essencial era a adaptação
do homem ao meio em que ele se encontra. Essa característica atende somente
à sua vida orgânica. Na passagem seguinte, Ortega y Gasset sintetiza as
conseqüências de semelhante modo de pensar:
"A
mão, sobretudo no homem, é o órgão exemplar da adaptação criadora, que
consiste em transformar proveitosamente o meio."
(O. C. II; p. 284).
A
biologia refere-se à vitalidade como um processo de adaptação. Esse mesmo
propósito orienta a psicologia, cuja vitalidade psíquica é inspirada na
biologia orgânica do século XIX. As teorias biológicas e psíquicas daquele
século entendem que a percepção do mundo circundante inicia-se num processo
de adaptação do sujeito ao meio em que está situado. Esse processo relaciona
a vida com o meio e é regido por ele. Porém, explica Ortega y Gasset, ao
penetrarmos fundo na alma humana, percebemos extratos profundos que
dificultam entende-la a partir de conceito de adaptação.
Para
Margarida Amoedo, o conceito de “paisagem” que o filósofo apresenta, visa
combater a categoria biológica de “meio”. Em nosso entendimento, o conceito
de “paisagem” significa que cada espécie animal tem o seu lugar natural,
embora o homem viva em toda parte. O termo “paisagem”, além de diferir do
“meio”, significa o conjunto das circunstâncias que o homem encontra em sua
vida. Desse modo, “circunstâncias” e “paisagens” são ao mesmo tempo uma
limitação para o homem e um conjunto de possibilidades.
Com o
conceito de “paisagem”, podemos auferir as seguintes implicações
pedagógicas: 1) o êxito da aprendizagem depende do uso de mecanismos
adequados; 2) a compreensão da paisagem do indivíduo permite investigar seu
potencial criador; e 3) educar deverá conduzir ao estabelecimento de
paisagens novas.
4. A forma psíquica inadaptada e a pulsação vital como sentimento de
vitalidade
No item
anterior, procuramos explicar em que consiste a adaptação e como o conceito
foi introduzido nas teorias pedagógicas. Consideramos também que essas
práticas educacionais suscitam dificuldades porque não incentivam a criação
humana. Agora, em contraposição ao que proclamam essas teorias, vejamos como
Ortega y Gasset aborda a forma psíquica como que tipifica a vida humana.
Para
levar adiante essa elucidação, recorremos, às palavras: “querer” e
“desejar”. O “querer” significa apropriar-se da realidade de algo e dos
meios que se utiliza para fazer algo; o “desejar” implica em dar conta de
que o desejado é relativo ou absolutamente impossível. Na criança, essa
distinção não existe. Quando sua experiência lhe mostra o que é ou não
possível, sua vontade vai se modificando entre o realizável e o
irrealizável. A sua existência torna-se uma constante luta de fronteiras
entre o “querer” e o “desejar”. Assim, o “desejo” é um “querer” fracassado.
Porém, Ortega y Gasset entende que é o “querer” que nutre o “desejo”,
movendo-o e ampliando-o. Assim, o desejo é o motor dentro do universo
psíquico porque por ele o homem sente suas necessidades e se empenha em
supri-las.
Ao olhar
a esfera política, Ortega y Gasset explica que o estado de “barbárie”
resulta do triunfo do homem que tem poucas necessidades. São as necessidades
que abrem as possibilidades para que ele saia de suas circunstâncias pelo
“desejo” e amplie os seus horizontes.
Uma
pedagogia voltada para a adaptação do indivíduo ao meio exclui os “desejos”
e se fecha a possibilidade do indivíduo realizar grandes feitos porque o
desejo de ser diferente foi abafado. Assim, os mestres cegam o indivíduo de
suas possibilidades e de suas potencialidades criadoras. Uma pedagogia
raciovitalista considera que o pensamento é a ação sobre a outra pessoa
porque influi na relação com ela. Desse modo, a censura muitas vezes
empregada pela pedagogia de adaptação pode nascer tanto do amor quanto do
rancor pelo outro.
Para o
filósofo, as emoções que sentimos na relação com o outro revelam nossas
instâncias psíquicas e são elas que nos dirigem, nos alimentam, nos
deprimem, mas que também nos são íntimas e podem nos nutrir. Essas emoções
são influenciadas por uma dinâmica psíquica que varia entre os homens. Isso
significa que o sentimento de vitalidade existente em cada homem parte de um
pulso psíquico íntimo que o faz cada um experimentar os desafios de sua
época.
Não há
que se esperar valores éticos nos pulsos vitais, mas cabe ao homem assegurar
sua saúde vital. Assim, a pedagogia deve preocupar-se em submeter a
atividade educacional aos ditames do imperativo de vitalidade. O ensino
fundamental, explica o filósofo, deve ter o objetivo de produzir o homem
saudável. Isso quer dizer que o homem deve sentir sua pulsação vital já no
período inicial da formação. Ortega y Gasset ainda explica que as demais
ciências, a moral, a técnica e o ideal de cidadania não devem se consistir
no ponto de partida da pedagogia raciovitalista, eles serão preocupações
posteriores do educando.
5. A
importância dos mitos na educação fundamental
Até
aqui, identificamos o perfil da pedagogia raciovitalista; entretanto é ainda
necessário abordar a questão dos mitos porque ela interfere na educação
fundamental. Na educação fundamental, o indivíduo necessita estar envolvido
numa atmosfera de sentimento audacioso, ambicioso e entusiasmado. É aí que
entram os mitos.
Uma
pedagogia prática, certamente, desprezará o ensino dos mitos por
considerá-los um emaranhado de imagens fantásticas e, em contraposição,
procurará desenvolver uma idéia exata sobre as coisas. Essa pedagogia
rejeita o papel que o mito possui e despreza a função interna que ele
alimenta sem a qual a vida psíquica fica paralisada. Ortega y Gasset explica
que o mito nutre o pulso vital e, por isso, o filósofo o denomina de
“hormônio psíquico”. O filósofo acrescenta que, até o século XIX, o “meio” é
a tradução do mundo físico-químico onde estão os indivíduos, e eles teriam
que se adaptar a ele do melhor modo possível. Assim, a biologia transforma
os fenômenos vitais em fenômenos mecânicos. As coisas, no entanto, não se
relacionam por atividades mecânicas.
A
dificuldade do ensino fundamental vigente é a suposição de que os educadores
fazem da vida educacional dos educandos. Eles pensam que os jovens possuem o
mesmo mundo que eles porque partem do próprio mundo como algo definitivo,
pronto e acabado e o tornam como modelo. Entretanto, que pensa desse modo
esquece que a maturidade e a cultura são criações da criança e do selvagem.
Para Ortega y Gasset, a maturidade não é a superação da imaturidade, e sim
uma interrogação da realidade que se apresenta ao indivíduo. Para o
filósofo, a pedagogia de Rousseau se assemelha ao emprego de um método cruel
porque intenta suplantar a paisagem natural da criança com os elementos que
rodeiam as pessoas maiores. O filósofo ainda explica que o homem é um
conjunto de órgãos seletos que interferem na realidade circundante; porém, o
“meio” depende não só de sua estrutura corporal, mas também da estrutura
psicológica. Por isso é importante ensinar os mitos aos jovens, para que ele
possa exercitar sua pulsação vital.
O jovem
imagina uma realidade ilusória e, por isso, sua educação vai se consolidando
na medida em que as interrogações vão perdendo as ilusões. Esse processo de
desilusão inicia-se quando a razão começa a operar em torno do novo objeto.
Todo empenho da razão será guiado pela vontade de saber e obter uma noção
exata do objeto. A razão quer elaborar uma cópia intelectual que a
transcreva como o objeto aparece. Para Ortega y Gasset, não há nada que
chegue até nós num primeiro instante e que não nos cause uma dupla reação:
história e lenda. A lenda ocupa tanto nossa paisagem que até mesmo a ciência
pode ser incorporada nela. Essa maneira de entender é uma crítica ao
positivismo, que é exemplo de uma grande exaltação acrítica à ciência. O que
o positivismo fez foi criar uma nova religião que acredita haver suplantado
as religiões.
6. O ato de
estudar na pedagogia raciovitalista
Até
aqui, apresentamos os principais conceitos da pedagogia raciovitalista.
Passamos agora a considerar o perfil do estudante e o ato de estudar. Para o
filósofo, o ato de estudar consiste na constante busca da verdade. Sendo
assim, a verdade é o fator que acalma a inquietude de nossa inteligência.
Nessa perspectiva, Ortega y Gasset explica que o saber deixa de ser
científico. Isso, completa o filósofo, ocorre também com a Metafísica. Para
quem não vê a necessidade da Metafísica, os seus assuntos consistem num
falatório sem sentido.
Para
compreender o sentido dos discursos metafísicos, não precisamos de nenhum
talento ou sabedoria inata, mas de uma condição fundamental: investigar para
que ela serve. Ortega y Gasset entende que para aceitar sua necessidade
deve-se reconhecê-la como um sentimento próprio e, da mesma forma, possuir
uma necessidade das coisas que nos chegam da realidade. Assim, percebemos
que a necessidade de conhecer é o motor que precisamos para buscar a
descrição das coisas que nos chegam.
Nesse
processo de conhecimento, ainda cabe examinar a questão: o que é o
estudante? O estudante é um ser humano a quem a vida não impõe a necessidade
das ciências. O estudante encontra a teoria e é estimulado a aprendê-la. Em
contrapartida, está aquele que cria a ciência, pois o cientista sente uma
necessidade vital com seu trabalho. Desse modo, não é o desejo que resulta
no saber, mas a necessidade em saber. Podemos ainda completar que o desejo
não existe sem que exista uma coisa desejada; ao contrário, a necessidade é
percebida quando uma carência brota na alma e precisa ser preenchida.
O
estudante tenderá a não questionar o conteúdo da ciência que lhe foi
comunicada. Ao contrário, quando está diante de um conceito determinado se
sente acomodado e amparado pela teoria e passa a crer que ela é definitiva,
pronta e acabada. Existe uma outra questão que deve ser analisada. Ortega y
Gasset indaga se, caso a ciência não estivesse aí, o estudante sentiria a
necessidade dela. Para responder, o filósofo explica que a situação de
estudante é artificial, ele apenas finge a necessidade. Portanto, o ideal é
que o estudante alimenta um sentimento que brota na sua alma com o intuito
de desbravar os diversos saberes. Mas estudar tem sido em nossa cultura a
obrigação de se interessar pelo que não interessa.
O perfil
do criador, para Ortega y Gasset, sustenta na curiosidade. Em Martin
Heidegger (1889-1976), a palavra “curiosidade” possui um sentido que parece
adequado ao que Ortega y Gasset quer exprimir. Para Heidegger, “curiosidade”
se origina na palavra “cura”, que significa “cuidado” ou “preocupação”.
Assim, um homem cuidadoso faz tudo com atenção e extremo rigor e se preocupa
com sua ocupação. Ortega y Gasset entende que o vício do homem é fingir o
cuidado, ou seja, ser incapaz de autêntica preocupação.
Através
da curiosidade, que se instala a preocupação com a ciência e aí o homem
revela sua sincera preocupação, que é uma necessidade imediata e autônoma. O
estudante que não sente essa curiosidade vive fraudando sua própria
existência.
7. A educação para os jovens
Os
ensinamentos de Ortega y Gasset para educação infantil foram tema de um
breve ensaio intitulado Para Los Niños Españoles, contido nas
Obras Completas v. IX. Nesse ensaio, o filósofo explica que as crianças
devem saber apenas fazer a distinção entre os diversos tipos de homens e
isso não se faz com exercício ou adestramento. Como é que se aprende a
diferenciar os homens? Do mesmo modo que se aprende a fazer outras formas de
discriminação.
"O
pintor chega a notar a diferença entre as cores que aos demais parecem
iguais. O músico distingue as mais leves divergências entre os sons. Para o
colecionador de vinhos não há vinhos iguais. A palavra “sábio” significa um
princípio que distingue os sabores."
(Para
Los Niños Españoles
p. 437).
Para
Ortega y Gasset, a vida social depende que um povo saiba distinguir os
homens e não confunda os ignorantes com os inteligentes. É a maturidade a
responsável por essa distinção. A partir dela é possível aos jovens
estudantes conduzirem suas vidas sabiamente.
As
propostas pedagógicas para os jovens estudantes são em síntese as seguintes:
a) não encontrar a verdade na opinião vulgar; b) evitar o contágio de
informações, evitar a verdade que outra pessoa transmite; c) O valor
intelectual e o valor moral são a mesma coisa. Com essas propostas, espera
Ortega y Gasset que a formação dos jovens possa melhorar o futuro, pois eles
se tornarão investigativos, críticos e não se diluirão nas massas que dão o
perfil da sociedade do seu tempo. Com esse método, espera o filósofo
solucionar os problemas que afligem sua geração.
8.
A educação para o futuro
A idéia
sobre a educação pede uma teoria filosófica fundante. No entendimento de
Ortega y Gasset, o ponto de partida para consolidar uma filosofia da
educação é identificação do paradigma filosófico que a rege. E esta
tentativa de identificação do modelo filosófico vigente esbarra na
diversidade dos sistemas filosóficos presentes em cada momento.
Compreendendo as diversidades filosóficas que Ortega y Gasset elucida, as
soluções dos problemas pedagógicos se tornaram mais claros.
Para
Ortega y Gasset, a Filosofia é o que permite entender o homem e o mundo.
Entretanto, em cada sociedade existe uma pluralidade de interpretações do
mundo e do homem. Assim, a diversidade filosófica apresenta-se duas
dimensões: a) a extensão de cada uma das filosofias no corpo social revela a
cultura específica na qual ele se insere; e b) o grau de divergência e
incompatibilidade entre os sistemas filosóficos abre espaço para o
surgimento de uma nova Filosofia. Esclarecer estas questões é o primeiro
passo para entender o homem e o mundo. È esse o propósito da educação
raciovitalista.
No texto
Apuntes sobre uma educación para el Futuro, Ortega y Gasset explica
que o Cristianismo dividiu a Europa produzindo a “guerra das religiões”.
Porém, o cansaço dessa luta estimulou a tolerância religiosa como meio de
apaziguar os conflitos. A tolerância, por sua vez, alimentou o racionalismo
do século XVIII. Já o racionalismo, propôs modificar radicalmente o Estado
com um método revolucionário. Esse método consistia em acreditar que a
cultura e as ciências levavam à plenitude do homem. Essa busca da plenitude
culminou no socialismo do século XX, cujas teses eram fundamentadas na
reclamação dos trabalhadores contra o Estado e um convite para se associarem
com trabalhadores de outras nações, fazer a revolução e achatar todos os
homens, culturas e um único fio histórico. Para Ortega y Gasset, o que
caracteriza essa redução do processo histórico é a necessidade de extremismo
dos homens.
Os
extremismos em que o homem mergulha desde os tempos medievais refletiram nos
mais variados objetos do pensamento filosófico. A arte, a técnica, a
política, as ciências e a educação se tornaram confusas com o radicalismo e
sentem-se incapaz de estabelecer uma filosofia da educação que acompanhe o
desenvolvimento humano em sentido pleno.
Para
esclarecer em que consiste uma Filosofia da Educação, o filósofo sugere que
se investigue todas as questões que envolvam e problematizem o homem e seu
tempo. Porém, deve-se evitar as disciplinas científicas que incluam a noção
de progresso. Isso porque, Ortega y Gasset entende que tais discursos são
conseqüências do positivismo francês que é limitado do significado das
ciências.
Portanto,
a educação para o futuro deve possuir um fundamento filosófico profundo para
que não fique distante da realidade vivida. As tentativas de extremismos
foram responsáveis pelo distanciamento do homem e do mundo e cabe aos
homens de hoje formular uma Filosofia da Educação que supra as necessidades
de sua sociedade.
Considerações Finais
Neste
trabalho, examinamos a importância das contribuições da filosofia
raciovitalista para a educação. As teses educacionais se fundam nos
problemas encontrados pelo filósofo Ortega y Gasset ao contrapor as práticas
educativas puramente técnicas vigentes em sua época e que se inspiravam nos
pensadores do séc. XIX. Essas práticas compreendiam o homem como um ser que
se adapta ao meio e, assim, tratavam a vida humana como algo que se
restringe ao orgânico.
Diversamente, a pedagogia raciovitalista compreende o homem como um ser que
está além de suas limitações orgânicas. Ele é um ser que possui pulsão
psicológica que nutre o desejo de conhecer a realidade vital. Os aspectos
psicológicos sofrem influxo da pulsação vital que impulsiona o homem para
além de suas circunstâncias e precisam, ser considerados pelas teorias
educativas.
Para que
haja a expansão desse pulso vital, o educador deve se valer dos mitos,
porque são eles os principais recursos para ensinar as virtudes necessárias
para a sobrevivência de uma comunidade. Os mitos não são simples lendas, são
“hormônios vitais” que ajudam o homem a exercer sua atividade criadora, ela
alimenta a audácia, coragem e ambição necessárias para a vida. Os mitos
devem ser ensinados ao jovem para que ele cresça sem se fixar em verdades
prontas e desenvolva o gosto pela pesquisa e busca da verdade.
O estudante,
formado neste processo de constante indagação, se transforma num
pesquisador. Assim, segue a vida pela eterna busca do saber. A educação,
assim vista, significa a ação de extrair uma coisa de outra, de converter
uma coisa menos boa em outra melhor. |
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Referências bibliográficas
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©
Danilo Santos Dornas |
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