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Neste trabalho indicaremos como o filósofo José Ortega y
Gasset analisou os problemas de seu tempo e a partir deles consolidou suas
teses sociais e políticas. A partir dos textos sobre política do filósofo
podemos verificar que sua preocupação fundamental era incentivar o homem em
sair da sua condição de minoridade e caminhar meios para construir a sua
vida singular.
Palavras-Chave:
Filosofia. Política. Raciovitalismo.
José Ortega y Gasset
foi um filósofo que viveu os problemas de seu tempo e se preocupou com o
destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por
vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o
desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas,
o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade,
que ele elaborou e que se tornou conhecida como raciovitalismo. Essa teoria
centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa.
Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset
particulariza os problemas de cada homem. A continuação desta mesma frase:
se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset
indica que o homem pode mudar a sua vida transformando a realidade em que
vive. Se não fizer afunda-se na circunstância e não dá sentido a sua própria
vida.
Neste trabalho,
indicaremos como, segundo o filósofo, devemos olhar os problemas sociais e
políticos como estratégia para mudar a circunstância. O caminho mais simples
é melhorando a educação e o nível cultural das pessoas, que são instâncias
que aproximam os homens.
Os escritos
analisados estão reunidos nas Obras Completas editadas pela Alianza
Editorial de Madri. Procuramos também nos valer, na elaboração desse artigo,
da interpretação de diversos estudiosos de Ortega y Gasset, notadamente dos
artigos editados na Revista de Estudios Orteguianos, o principal
veículo de estudo da obra do filósofo espanhol.
1. A discussão contemporânea sobre os temas políticos de Ortega y Gasset
Os problemas
políticos integram um importante capítulo de filosofia da razão vital, fazem
parte da dimensão social e história do viver. Julián Marías em sua
História da Filosofia (1959) afirma que temos que dedicar atenção à
reflexão de Ortega y Gasset sobre política porque aí encontramos elementos
para entender o funcionamento da sociedade. Essa nunca está parada e a
tentativa de estabelecer equilíbrio é sempre precária. A negociação política
é a forma de violência menor para solucionar os problemas sociais. Em outras
palavras, Julian Marías afirma que ao estudar a política, Ortega y Gasset
estava enfrentando aspectos essenciais do mundo dos homens, vencendo
obstáculos que o impediram de viver bem.
Luis Gabriel
Stheeman, no artigo La etimologia como estratégia retórica en los textos
políticos de Ortega y Gasset (Revista de Estudios Orteguianos, 2000)
exorta os estudiosos de Ortega y Gasset a observar a preocupação do filósofo
com a clareza e a exatidão dos temas que utiliza no campo político. Essa é
uma exortação válida que procuramos incorporar à esta pesquisa, manter a
clareza dos conceitos.
Na mesma revista,
Maria Teresa Lopes de la Vieja escreveu um artigo intitulado Democracia e
masas onde esclarece que o conceito de hiperdemocracia traduz a
tentativa de imposição das massas de um certo comportamento uniformizado.
Esse artigo nos esclarece que Ortega y Gasset não era contrário à democracia
embora considerasse as instituições políticas e as relações sociais e
pessoais seguem regras distintas. Em nossa pesquisa adotamos esse
entendimento que nos parece fiel ao espírito do raciovitalismo.
Um conjunto de
artigos publicados no segundo número da Revista de Estudios Orteguianos
sobre o livro La Rebelión de las masas, dentre dos quais se destaca o
intitulado El mal radical de Felipe Ledesure, revela que a propensão
a inércia do homem-massa constitui um mal radical. De fato, no atual momento
de interpretação da obra orteguiana, o comportamento do homem-massa é
representativo de uma crise mais profunda do homem. Essa foi a interpretação
que demos ao assunto central da referida obra orteguiana.
No terceiro número da
revista de Estudios Orteguianos, José M. Sevilla esclarece, no artigo
intitulado Ortega y Gasset y la idea de Europa, que a noção de Europa
corresponde a nova crença orteguiana, radicalmente ontológica e inseparável
da realidade histórica. De fato, observamos que Ortega y Gasset desenvolve
uma meditação centrada na necessidade da unidade européia e na defesa da
cultura, temas que são atuais e importantes.
Dos intérpretes
brasileiros de Ortega y Gasset, os mais notáveis são Gilberto de Mello
Kujawski e Ubiratan Macedo. O primeiro autor do clássico Ortega y Gasset
e a aventura da razão (1964), insiste na responsabilidade pessoal nos
assuntos políticos lembrando que nisso consiste o principal freio contra as
ditaduras. O mesmo autor esclarece também no ensaio A experiência de
Ortega publicado no livro Discurso sobre a violência que o homem
europeu viveu experiências diversas de organização política. Ele já foi
democrata, liberal, absolutista e feudal e de cada período retirou
experiências que devem ajudá-lo hoje na solução dos problemas políticos.
Ubiratan Macedo escreveu ensaios memoráveis como A Filosofia de Ortega y
Gasset (2001), publicado no livro A presença da moral na cultura
brasileira, onde mostra que o engajamento do filósofo é com a razão,
descartando toda tentativa de ver em Ortega y Gasset um filósofo militante
na política, embora ele fosse um teórico que adotava posições políticas e
assumia o risco delas.
Os elementos interpretativos destes teóricos foram
considerados na condução desta pesquisa.
2. Os problemas políticos
A geração de Ortega y
Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas sociais. Tais problemas
surgiram do mal uso da razão no exame da vida social e política. Para o
filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão e a sensibilidade
para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de se firmar como
nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício da
participação política. Maus governantes completam a dificuldade.
Primeiro, é preciso
entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica
que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto de
uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A
nação passa a existir se os homens exercitam seu patriotismo no país onde
vivem.
Faz parte do
patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação. Os
vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que
permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a
situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação
não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo
espanhol, ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se
motivo de desprezo por outras nações da Europa.
É necessário
esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível aquele que não
se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam nem sequer
reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não é o que
simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma queda.
O filósofo entende
que sua geração estava mal preparada política e moralmente. Por isso, ele
supõe que era necessário discutir os males da Espanha, assim como fazem
outras nações da Europa. Os males políticos que atravessavam a Espanha se
fundamentavam na má formulação do conteúdo moral das gerações precedentes. O
filósofo diz que uma geração que não se prepara moralmente para as
dificuldades que se avizinham deixa questões trágicas e não resolvidas para
as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se segue, o que nos
sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a edificação de uma
sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se encontra
desvirtuada. Eis o que nos diz:
"É certo que a geração anterior não
nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo
com uma missão específica, com o dever adscrito nominalmente a sua vida"
(Los problemas nacionales y la juventud.
p. 15).
Não custa recordar
que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas abstratas. Isso
porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma tarefa a ser
cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos
mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se
pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A
realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção da
geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função é
importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história e
regente da moral do homem:
"Cada qual faz o que é capaz de
fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos
obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças
e até com os vícios do passado"
(idem.
p. 16).
Desse modo, Ortega y
Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve observa-se
falta ao povo entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade para as instâncias
morais. Essa a situação da Espanha e ela devia ser alterada. No entanto, a
geração de Ortega y Gasset, assim lhe pareceu, não herdou virtudes nem
ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo e desânimo. Os homens estão
destinados a viverem numa nação com características particulares e
regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações. Essa característica
particular e regional de uma nação significa um modo que antecede a
desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao redor.
Os líderes políticos
de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos para que essa
regionalização se extinga impedindo a formulação dos flancos, grupos
particulares, para que a necessidade de todos sejam perseguidas por meio de
uma discussão entre todos os homens. Um político que cria leis sem um debate
entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e dificulta que ela se
forme integralmente.
Ortega y Gasset
entende que resgatar a moral pública é tarefa da metafísica e não da
sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve recuperar
uma virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347
a. C.), em sua República, pretendia que um rei-filósofo administrasse
com sucesso a polis. Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à
administração do Estado. Para ele, o governante precisa ser um homem
preparado para enfrentar as dificuldades da administração pública.
Governantes cultos são importantes porque eles identificam a alma de
seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na
Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas
guerras na história de seu povo:
"Na Espanha só temos a tradição de
valentia: por um gesto de valentia vendemos a alma nacional ao diabo"
(idem. p. 21).
Os problemas
políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada ser humano.
Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava viver como
quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade,
para Ortega y Gasset, não pode ser mais entendida como entre os gregos; ele
a vê como respeito ao indivíduo e ao Estado. Ortega y Gasset completa que a
liberdade de consciência só pode ser desenvolvida numa organização política
forte que eduque o povo espanhol. E consciência significa sensibilidade,
conhecimento dos deveres morais.
Como educar o povo?
Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os homens. E a paz
só é conseguida por um povo que possua uma alma culta:
Paz e cultura tem um valor
recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é
cultivo
(idem.
p. 23).
Nesse sentido, o
pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia para
introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas por uma
sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os homens e não
podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a individualidade
de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças existirem mais
os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio compromisso moral
que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y Gasset entende que
é exigência moral evitar as ações dos revolucionários, mas deve-se entender
seu sentido porque elas só surgem como tentativas de solucionar os problemas
encontrados em uma sociedade.
3. O homem
massa e os problemas gerados pela política
As teses
sociais e políticas de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros
problemas sociais provocados pelo individualismo exagerado, nascido segundo
o filósofo do idealismo subjetivista. O autor explica em seus textos que os
problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela
superlotação dos lugares públicos e pela padronização do comportamento que
forma a massa social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa.
O que o
preocupa é o homem não se comprometer com sua vocação ou missão. O homem
massa, como ele o trata, é o indivíduo que não atribui a si um valor e,
certamente, não se angustia com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos
demais indivíduos. Essa análise do filósofo destaca a preocupação em
melhorar a qualidade de vida de cada homem para melhor identificar no corpo
da nação uma coluna
vertebral
que une os homens.
Dessa
forma, o problema social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação
de discutir os rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados
na sociedade, distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos
homens nos assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela
demagogia e pela ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de
hiperdemocracia das massas
cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo,
correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das
massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões
materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de leis, sem se
preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da
sociedade contemporânea em se firmar como sociedade.
Um dos
sintomas mais evidentes da hiperdemocracia é o propósito das massas de fazer
justiça por seus próprios meios. Ela recorre ao linchamento sem o
reconhecimento das leis que garantam a paz. Ortega y Gasset verifica que
quando as massas triunfam, reina também a violência como doutrina e única
razão. Para controlar a violência das massas, nasce o Estado.
O homem
massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que
são os caminhos que ele tem para sair da condição de vulgaridade. O
resultado dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os
homens passam a viver em função do Estado, tornando-se peças da máquina
estatal. Após certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a
razão dos governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX, o
homem perdeu a responsabilidade e o sentido de uma vida que é única, vivida
na primeira pessoa.
Os
governos totalitários, comunistas e socialistas, e também a sociedade de
consumo são potenciais fabricantes de homens massa porque o impedem de viver
singularmente. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos.
Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem
particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas
circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair.
Ortega y
Gasset postula uma rebelião individual contra os desejos do homem massa em
suas obras sobre política. Ou seja, defende a revolta pessoal contra a
consciência coletiva para manter o homem numa posição seleta pela sua
própria capacidade de trabalhar, construir e se esforçar cada vez mais para
melhorar sua vida.
Ortega y Gasset
apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência individual
identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio de cada
ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua
singularidade.
A primeira coisa a se
fazer para melhorar a vida na Espanha, na avaliação de Ortega y Gasset, é
socializar os homens fazendo com que saiam da condição de homens massa. Isso
pode parecer um paradoxo, mas não o é. A vida singular do homem se dá no
meio social e só nele o homem está como que em casa. Preocupar-se com a
política é ocupar-se com a vida social, o que só pode ser conseguido pelo
humanismo e pela cultura. Assim, preocupar-se com o social é cultura,
construção que, por sua vez, promove a paz social pelo princípio de amizade.
Logo, o socialismo é construtor da paz, afirma o filósofo.
Por socialismo Ortega
entende não a teoria marxista, como foi comum no seu tempo, mas uma
preocupação com a vida social e senso de responsabilidade quanto aos
destinos de seu grupo.
Ortega y Gasset diz
que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas amigos de
seus amigos. Em seguida explica os ideais que entende o socialismo alimenta.
Os socialistas devem se agrupar, comungar, comunicar e socializar todos os
homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio de amizade aos
homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário existir nas
relações sociais. Como naquele momento socialismo estava identificado com
marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por socialismo.
Ortega y Gasset
explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica como
uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por um tipo
de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir a coisa
econômica como meio para a vida.
"O que interessava a Karl Marx era
determinar que tudo de mal que compõe a história social humana, religião,
política, moral são sempre formas de realidade econômica, que não tem
sentido sem referir ao econômico"
(La
ciencia y la religión como problemas políticos. p.
32).
A economia é
entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a vida. Ortega y
Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite reduzir a vida
humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol, sempre haverá o
capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção. E, ainda
completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos não
devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis.
Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta
do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens.
Em outras palavras é inútil tentar eliminar a luta de classes, mas é
possível mantê-la sujeita a estrita regras. Os acontecimentos históricos dos
últimos anos confirmam a avaliação do filósofo.
O socialismo tal como
ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E cultura, para Ortega y
Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura é o cultivo científico
do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de seu sentimento. Por
isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade
onde todos os homens podem participar juntos. Homem, em seu sentido
soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se
comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz
entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício de todos,
porque só assim existirá uma comunidade firme.
Nossa consciência
necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y Gasset diz que
este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende a transformação de
um homem imperfeito em indivíduo com irradiações virtuosas. A pedagogia,
enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem por objetivo integrar os
indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a pedagogia deve começar por um
ideal moral.
O homem, segundo
Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O homem se difere de
um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para sua comunidade.
Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens, e sim de uma
atividade formadora que insere o homem singular, consciente de sua situação,
em um grupo social. É o que afirma o filósofo:
"O cavalo é uma coisa física, é
todo uma exterioridade, vive só uma vida espacial. Agora bem, o problema da
pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem
interior, o homem que pensa, sente e quer"
(La
pedagogia social como programa político. p. 51).
As características da
ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos pertencem ao patrimônio
comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem subjetivos. Portanto,
existe um eu individual, que sente tais emoções e um eu
comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma
comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum.
Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento.
"O pensar é um monólogo e o
monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma
só dimensão"
(idem p. 52).
Ortega y Gasset
explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir conteúdo
para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade com os
outros se mantém solitário e se transforma em um átomo social.
Todo individualismo é
mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset considera a pedagogia
individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua República, que é
preciso primeiramente educar a polis e depois o indivíduo. Então, a
pedagogia platônica privilegia a dimensão social. Ortega y Gasset explica
que a escola só é um espaço momentâneo e que a verdadeira educação se
adquire em casa, nas praças e estabelecimentos públicos; enfim, onde as
relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia é entendida pelo filósofo
como a ciência que transforma as sociedades, pela moralidade, em um reunião
de pessoas com ideais.
Antes, essa
transformação do indivíduo era entendida como produto da política, explica o
pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma pedagogia
social. O social é a combinação dos esforços individuais para realizar uma
obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum, recebem em
seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim, nasce o elo da
unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se forma uma
sociedade unida.
"Socializar o homem é fazer do
trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca
tudo, desde cavar a terra até compor versos"
(idem. p. 58).
Não pode participar
bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende que pela
consciência do trabalho pode-se superar as lutas entre ricos e pobres na
nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção é
proposta do marxismo, e não promove a paz e nem assegura a liberdade entre
os homens. Ao contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos
de expressão que a sociedade consegue os melhores benefícios.
O verdadeiro poder
espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens podem
participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu sentido
soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos devem se
comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a paz
entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da
comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança.
6. Reflexões de Ortega y Gasset acerca dos governos totalitários
Para
Ortega y Gasset, os governos totalitários não incentivam a democracia porque
não restauram os sucessos do passado nascidos na liberdade e na pluralidade
de opinião. Ao invés de tornar o Estado um espaço de homens virtuosos, o
totalitarismo transforma o Estado em algo “forte” e emprega meios
dissolventes para fazer valer as convicções da minoria, violentando os
direitos individuais. Assim, o governo totalitário extermina a liberdade dos
homens, transformado-os em seres alienados de sua vida e do seu destino.
Ortega y Gasset explica que em épocas anteriores havia a necessidade de
preservar a intimidade de cada um, problema cuja solução foi buscado pela
liberal-democracia. Porém, o sistema totalitário surge como uma reação ao
liberalismo, considerando-o incapaz de resolver os problemas sociais.
Partindo
desta constatação, o filósofo espanhol, considera o totalitarismo como um
fenômeno histórico. Isso significa que, a verdadeira natureza do
totalitarismo está fora do tempo histórico. Trata-se de tentativa em ocultar
a liberdade humana e é uma forma de garantir o poder e a autoridade do
grupo. Ortega y Gasset explica ainda que o totalitarismo cria as armas para
sua autodestruição ao abandonar a liberdade vital.
O
totalitarismo é algo inautêntico porque entende que os homens são aquilo que
eles verdadeiramente não são – seres coletivos. Paralelamente, os ideais que
os totalitários acreditam não constituem a verdadeira realidade da vida. Por
esta razão é ilusório buscar no totalitarismo um sentido autêntico porque
ele não considera a vitalidade humana.
Toda
agremiação política não é mais do que uma palavra vaga, e só adquire sentido
autêntico quando reúne os ideais distintos integrando uma fase histórica.
Para Ortega y Gasset, exatamente o que o totalitarismo não almeja é
socializar seus ideais com a pluralidade de opiniões e além disso, prefere
ocultar o que pretende de forma violenta.
O
totalitarismo é uma forma de massificar os homens e encobrir suas
contradições. Uma destas contradições é supor que o vencedor de uma disputa
necessita da ajuda dos vencidos. Desse modo, o vencedor forja a debilidade
de seu inimigo. A análise do filósofo revela que a busca do poder nada mais
é que um jogo de estratégia, onde o mais débil não têm forças para se
erguer, e por isso deve ser mantido nesta condição pela força de autoridade.
Por isso,
Ortega y Gasset entende que se deve buscar nas circunstâncias a explicação
para a debilidade dos homens, ou seja, buscar na vida aquilo que permitiu o
governo totalitário chegar ao controle de vários estados europeus.
Comparando, o totalitarismo com a chegada ao poder do romano Júlio César, no
século 70 a.C. Ortega y Gasset explica:
"A dificuldade (da
sociedade romana) que falamos é idêntica a que sentimos diante do
totalitarismo. Mais que o triunfo de César sobre os demais homens, nos
parece que são os demais homens quem desejam o triunfo de César"
(Sobre
el Fascismo.
p. 500).
É
necessário esclarecer que Ortega y Gasset, não considera que as épocas
históricas possam se identificar, mas têm algo em comum. O fator comum, por
exemplo, entre o governo de César, no período romano, e o totalitarismo,
estabelecido na Europa no século XX é o prévio desprestígio das instituições
estabelecidas. O fato mais grave nestes sistemas de governo, na avaliação do
filósofo, são as mudanças radicais nas idéias e nos sentimentos que o
totalitarismo provoca. Ortega y Gasset, está preocupado com a vida de cada
um ao tratar as mudanças circunstanciais como algo grave.
O
totalitarismo comporta partidos de posições autoritárias, conforme afirma no
texto que se segue:
"Um partido autoritário,
como o são muitos; confusamente antidemocráticos, como vem sendo todas as
direitas e esquerdas extremas; nacionalistas, como outra meia dúzia de
grupos, de revolucionários, socialistas, etc."
(Idem
p. 501).
Para o
filósofo, as características destes sistemas de governos são a violência e a
ilegitimidade. O primeiro é conseqüência do segundo, e vice-versa formando
um círculo vicioso. Os governos autoritários adquirem o poder através da
violência e por isso são ilegais, assim como a violência que é um crime e
favorece os autoritários chegarem ao poder.
Ortega y
Gasset explica que o totalitarismo exerce o poder em nome da justiça, de uma
ética e concepção de universo elaborados por um grupo particular. Estes
valores são criados conforme as conveniências de consolidar a autoridade
daqueles que mandam. Para fazer valer seus valores, os grupos autoritários
usam a violência sem se preocupar em dar um fundamento jurídico a suas
ações, além de, não se preocupar em construir nenhuma sólida teoria
política. Esses governos totalitários, não pretendem governar com os
direitos subordinados a uma ética comum que respeite a pluralidade dos
homens. Os direitos que os autoritários conhecem são: a força e a violência
das quais se valem para impor suas vontades.
A
permanente prática da arbitrariedade estabelece um caos jurídico nos Estado
autoritário. Ortega y Gasset, indaga-se sobre os motivos que fizeram as
forças sociais, que estiveram sempre presentes na defesa da liberdade, não
se esforçarem para impedir a vitória do caos jurídico que se instala com o
autoritarismo. A resposta, a que o filósofo chega é a seguinte:
"Pela sensível razão de
que hoje não existem forças sociais importantes que possam viver esse
entusiasmo; ou, porque hoje não existe nenhuma nação continental capaz de
dar legitimidade que satisfaça a ilusão dos espíritos"
(Idem
p. 503).
Ortega y
Gasset, explica que a política que possibilita o triunfo da liberdade é o
espírito público. O filósofo explica que esse espírito “dá a forma externa a
profunda realidade oculta nos corações” (Idem
p.503).
Isso significa que se deve
abrir bem os olhos para tentar surpreender o enigma da realidade e extrair
do que se averigua na política massificante férteis sugestões para evitar
novos erros desta natureza. A fragilidade do sistema autoritário é que
depende para existir de que haja uma debilidade nos homens, uma ignorância
dos assuntos vitais e políticos.
7. Reflexões
de Ortega y Gasset acerca do Liberalismo
Ortega y
Gasset pensa o Liberalismo a partir das transformações científicas ocorridas
no século XIX. Da mesma forma que o cientificismo influenciou a vida dos
homens também influiu no exercício da política. Assim, houve um processo de
adequação entre as idéias científicas e as idéias políticas, o que gerou
inúmeros choques de in-culturalização.
O
filósofo explica que na Europa existem muitos conservadores, e todo
conservadorismo entende que não há mais nada para criar ou edificar numa
cultura. Os conservadores querem construir um conjunto forte de homens, e
assim não partem do princípio vital, base de vida de cada indivíduo, mas da
necessidade do Estado em submeter todos os homens sob seu comando.
Conservadores são, no sentir do filósofo, os governos autoritários e
totalitários. O governo conservador não deseja que os homens adquiram forças
para sair das suas circunstâncias, e viver é vencê-las. Ortega y Gasset diz
que o homem é um eu e sua circunstância e isto significa mencionar a
acomodação imposta pelos conservadores às massas. Os sistemas políticos que
preferem a coletividade não incentivam o indivíduo a sair das suas
circunstâncias que o impedem de dar uma melhor significação a sua vida. Essa
idéia conservadora de que o homem não saia da sua circunstância é típica das
políticas anti-liberais. Ela promove uma incultura no homem, estagnando e
fragmentando a nação. Na passagem que se segue o filósofo explica que as
políticas de massa considera os homens simples resultado das circunstâncias
em que vivem, mas lhes impede de refletir sobre o mundo ao redor:
"Não nos é perguntado
antes se queremos ser fortes; poderia ser que prefería ser bons, nada mais
que bons; justos, nada mais que justos; discretos, em último caso, nada mais
que discretos. E se nos proíbe a direção, nos impõe o dever da incultura"
(La Reforma Liberal.
p.32).
O
principal instrumento de educação política para que o homem vença os seus
problemas, é a imprensa. A imprensa tem um papel fundamental na definição
dos rumos da política. Entretanto, os periódicos não abordam seriamente os
temas sociais e políticos, são artísticos. Ortega y Gasset explica que essa
forma de arte controla as emoções sociais, por isso não dá ao povo a chance
de debater os assuntos e não lhes mostra caminhos para seguir:
"Os periódicos estão
carregados de idéias da emoção para que expande a carga emotiva; não lhes
toca elaborar afirmações ou negações, isto é para o sábio. Para o estadista;
sua tarefa se reduz a expressar robustamente essas afirmações ou negações
desempenhadas por outros"
(Idem p.33).
Para o
filósofo é fundamental ressuscitar o Liberalismo e instaurar na Europa um
verdadeiro partido liberal com atenção voltada para a liberdade. Mas, para
isso, Ortega y Gasset explica que é preciso contar com o auxílio dos
espíritos revolucionários. De que tipo de revolucionário ele fala? Não de um
revolucionário armado, que usa a força para impor sua ideologia, mas um
revolucionário capaz de unir os homens por um ideal de liberdade.
O
Liberalismo para ser edificado e seguir seu curso na História deve se
apresentar como o “partido da revolução”. Eis o que diz:
"O Liberalismo se não
quiser seguir sendo um fenômeno da História, tem que se confessar e se
declarar inequivocamente sistema da revolução. Aos ânimos que acostumaram
espantar-se com a sombra que desejam o ar das palavras proponho este ponto
de meditação: que preferem: um sistema de revolução ou revolucionários sem
sistema?"
(Idem p. 34).
O
Liberalismo, para Ortega y Gasset, é uma forma de pensamento político que
antepõe a realização de um ideal moral não dividir os homens em classes. O
caminho seguido pelos totalitários, ao contrário, não atende as exigências
vitais, nega o valor ético dos homens e atende este ponto de vista quando
constrói uma constituição política sem identificar os valores éticos do seu
tempo.
O
Liberalismo acredita que nenhum regime social é definitivamente justo.
Ortega y Gasset explica que sempre a norma ou idéia de justiça necessita de
uma visão que transcenda a lei escrita:
Como os peripatéticos
tinham que buscar fora do mundo e falavam em um Deus invisível ou primeiro
motor imóvel, que impulsiona as coisas que vemos mover-se, assim o primeiro
motor jurídico das transformações constitucionais é esse direito não
escrito, esse direito ideal, centro da energia ética da História. A este
direito sobreconstitucional que é sua vez de grado dever, chamo de revolução
(Idem.
p.35).
O
Liberalismo, no entendimento de Ortega y Gasset, é o exercício de liberdade.
Porém, que liberdade é essa a que o filósofo se refere? Trata-se de uma
liberdade mencionada na política platônica, aquela que reconhece o indivíduo
fora do Estado. O Liberalismo orteguiano é resposta aos erros originais da
fundamentação positivista utilitária do Liberalismo inglês. Tal forma é
norma em toda Europa, provocando um individualismo exacerbado.
Na visão
utilitária do Liberalismo, a palavra liberdade se reduz a certa forma de
tolerância, explica Ortega y Gasset. Na passagem que se segue o filósofo
explica o que entende por tolerância:
"A tolerância não é
renúncia ou extinguir a luta, e sim a utilização desta palavra, significa a
confirmação e a legalização das armas de combate"
(Idem
p. 36).
Para
Ortega y Gasset, o exercício da liberdade é mais do que isto, significa
modificar a constituição na medida que as gerações exigirem tal modificação.
Não indica somente que há de respeitar as leis escritas: este valor negativo
não distinguiria o liberal do conservador. Liberdade, em seu valor positivo,
para o filósofo, é dada pela ética que encaminha os homens, respeitando seus
conceitos vitais. Desse modo, o filósofo conclui que o Liberalismo serve
para estabelecer virtudes necessárias para a socialização dos homens:
"Não creio que há uma missão mais
perfeita e gloriosa na terra; porque se há algo certo é que este gigantesco
alambique do Universo está posto aqui para que tú, senhor leitor, e eu, e
nossos filhos, vamos destilando do nossos corações umas gotas de virtude"
(Idem.
p.38).
8. Desempenhos sociais dos sistemas dos governos totalitários e liberal
As
diferentes formas de governo identificadas acima por Ortega y Gasset têm
como alicerce a educação. Cada forma de governo tem um paradigma de educação
que fornece valores para serem seguidos pela sociedade.
Desta
forma, educação significa conduzir alguém para fora do lugar onde se
encontra. Essa definição tem um sentido para Ortega y Gasset. Ao criar meios
para que o homem saia da sua minoridade, como já dizia Immanuel Kant
(1724-1808), Ortega y Gasset envolve o homem no abandono de suas referências
ou circuntâncias. Portanto, o processo educativo para Ortega y Gasset,
significa uma dilatação da vida para fora do meio em que ela está situada.
Ortega y
Gasset afirma que as políticas totalitárias não cuidam de levar o homem para
fora das suas circunstâncias. Ao contrário, as políticas totalitárias
prendem o indivíduo no conjunto de referências ou circunstâncias e se
esforça por manter o indivíduo preso na minoridade. Dessa forma, entende-se
este método como uma doutrina, e não como uma educação no sentido clássico
de levar alguém para determinado objetivo.
Como
exemplo, podemos citar o filósofo russo Anton Semiónovitch Makarenko
(1888-1939) que desenvolveu uma pedagogia socialista entendendo que o
coletivo é um organismo social vivo. Suas idéias tinham como base que nenhum
método pode ser elaborado à base do par aluno-professor, mas só à base da
idéia geral da organização da sociedade e do coletivo, extinguindo o talento
individual.
Entendemos que toda educação é atividade essencialmente
política, pois trabalha com dois problemas vitais: o homem e a sociedade.
Unir estes dois problemas foi o que intentou Makarenko. Para Ortega y
Gasset, o homem tem a condição de ser livre e essa liberdade é que esclarece
sua vida social. Sem a liberdade não se chega à compreensão do que é a vida
de cada indivíduo. A educação liberal faz com que o homem perceba sempre a
existência de novos caminhos a serem seguidos. Trata-se de buscar na
experiência vital de cada um os meios para chegar ao objetivo, que é a
formação de cidadãos.
Considerações Finais
As teses examinadas anteriormente traduzem aquilo que é
essencial para a discussão da filosofia política de Ortega y Gasset. Elas
nos ajudam a entender os problemas do homem do século XX e o significado e
amplitude da crise observada por vários filósofos.
O problema encontrado
pelo filósofo no campo da política é o que ele chama de “hiperdemocracia das
massas” que significa que as massas atuam sem leis, por meio de pressões
materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. Desse modo, as massas
propuseram se a distanciar dos assuntos políticos, não discutindo e não
participando das atividades políticas, o que consolidou lideranças
conduzidas pela demagogia e ignorância.
Entretanto, o grande
feito do mundo ocidental é a criação da civilização, por meio da
socialização. Isso porque, por mais de dois milênios os homens se esforçam
para edificarem uma construção comum, mas mesmo com todo o esforço e sucesso
o homem continua vulnerável, fraco e até adoece por causa de seus problemas
e suas inseguranças. O homem não consegue viver humanamente sem manter uma
tensão criadora e precisa estar alerta aos desafios de sua época para vencer
os desafios.
A partir do momento
em que o homem não consegue responder aos seus desafios, ele experimenta
problemas psicológicos, ele perde horizonte. Ortega y Gasset entende que o
homem deve-se ocupar com o que ele identifica como desafio, caso contrário,
experimentará o fracasso, transformando-se em “homem-massa”. Cabe aos
educadores e filósofos enfrentarem essa doença do século. Eles não devem se
limitar a ensinar as técnicas da vida moderna, mas educar o homem para que
ele socialize as preocupações e encontre soluções.
Neste trabalho
examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y Gasset. Vimos os
problemas causados por uma sociedade de massa que desarticula a noção de
responsabilidade pessoal e tira o caráter único do viver. Tal influência
deve ser alterada para não se transformar a nação numa hiperdemocracia. A
hiperdemocracia é o exercício das massas e imposição de seus costumes ao
restante da sociedade com todas as implicações negativas daí decorrentes.
Entretanto, isso não significa uma posição antidemocrática, que o filósofo
condenava. Pensamos que ele espera superar o democratismo de inspiração
rousseniana (cf. Carvalho, 2001. p. 411-415), ou melhor, conforme diz Maria
Teresa Lopez de la Vieja, a crítica à hiperdemocracia é uma tentativa de
suplantar os abusos da imposição e os inconvenientes do domínio do homem
massa ao longo do século XX. Nossos estudos comprovam a correção desta tese.
Um dos modos de
evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação seja o exemplar fio
condutor para os homens e assim privilegiar as decisões políticas de forma
exemplar, valorizando o conhecimento e a competência. Aqui se verifica que,
Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367–322 a. C.), e
assume a virtude da prudência. Aquele que se guiar nestes moldes será sempre
um modelo a ser seguido. No que se refere ao exame do papel da educação na
vida social, os intérpretes não se afastam do que aqui propusemos.
Há leitores de
Ortega y Gasset que identificam a preocupação em formar homens puros como
uma estratégia aristocrática. Essa não era a intenção do filósofo conforme
já podemos deixar esclarecido. Esses intérpretes desconhecem que o filósofo
valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política
sem destruir os valores de cada pessoa, teria a educação a função de
unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real
intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição aparentemente
elitista de Ortega y Gasset se refere a aspectos psicológicos e
antropológicos que, conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de la Vieja,
significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se
de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos.
O filósofo não discute questões como eleições, partidos e
formas de governo, e sim, deseja estabelecer bases de uma “pedagogia
política”. Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de
interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública
através do meio cultural não são tarefas dos políticos, e sim de uma elite
cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço
suficiente para transcender a vida comum. Como se vê o problema é de ordem
moral. O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida
não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida. A vida é, pois, uma
atividade que se fortalece com a razão, mesmo sendo mais do que ela. |