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Ortega y Gasset e a teoria do valor



Fernanda de Araújo Melo


                             

 

 
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Resumo

Palavras-chave

I – Considerações iniciais


II – Revisão de literatura


III –  A Ética Raciovitalista
 


IV – A teoria subjetiva do valor


V – A crítica de Ortega às teorias subjetivas do valor

 

VI. Consideracões finais


VII – Referências bibliográficas

 

 

Resumo: A referida comunicação tem como objetivo o significado dos valores na ética raciovitalista de Ortega y Gasset. Segundo o filósofo, viver é fazer algo, é escolher dentre as inúmeras possibilidades, qual caminho seguir. E estas escolhas, esclarece Ortega, pautam-se nos valores que o sujeito identifica para melhor administrar a sua vida. A singularidade do pensamento orteguiano encontra-se numa interpretação objetiva. É a partir dessa ótica que buscamos compreender o significado do valor proposto pelo filósofo.

Palavras-chave: Raciovitalismo, circunstância, valor

  

I – Considerações iniciais

      A referida comunicação tem como objetivo examinar o significado dos valores na ética raciovitalista de Ortega y Gasset. A questão dos valores é um tema que Ortega considera relevante para entender como ocorre a relação do homem com o mundo que o circunda. Segundo ele, quando o homem ignora o papel dos valores fica distante de perceber o que está acontecendo à sua volta.
      Cabe ressaltar que as discussões e análise sobre o significado do valor foram desenvolvidas no século XX. Antes, o problema vinha vinculado à outras questões, conforme esclarece o filósofo:
 

                                                                            “o valor ou aparece fundido e indiferenciado em outros problemas, ou pelo contrário, se deslizará disfarçado sobre algumas de suas formas particulares” (O.C., p. 316. v. VI).

     Faz-se necessário precisar que a questão dos valores está presente em toda historia da filosofia, mas somente na contemporaneidade passa a ser investigado separadamente com o desenvolvimento da axiologia.

      Na ética raciovitalista, o significado do valor encontra-se diretamente relacionado com as escolhas que temos que fazer. Segundo Ortega, viver é fazer algo, é escolher dentre as inúmeras possibilidades, qual caminho seguir. E estas escolhas, esclarece o filósofo, pautam-se nos valores que o sujeito identifica para melhor administrar a sua vida.  

      Dividimos essa comunicação em duas partes. Inicialmente veremos como o filósofo estabelece as bases de sua ética raciovitalista. Os detalhes são apresentados no item III. Em seguida, assumimos como eixo de investigação a sua teoria do valor, cujos aspectos investigamos nos itens IV e V.

II – Revisão de literatura

    Utilizamos nessa comunicação as Obras Completas, de José Ortega y Gasset, editadas em Madrid, pela Alianza. Como leitura de apoio, valemo-nos de alguns comentadores: História da Filosofia de Julián Marías. Na referida obra, Marías dedica um capítulo para comentar os principais pontos da filosofia orteguiana. Discípulo direto de Ortega, é o principal intérprete da filosofia raciovitalista. 

     Introdução à Filosofia da Razão Vital (2002), de José Maurício de Carvalho. Nesta obra, o autor faz uma leitura culturalista do pensamento orteguiano. No capítulo “A vida e seus valores”, afirma que Ortega fez uma filosofia da cultura, onde inseriu sua teoria do valor. Este livro é um dos principais estudos, em língua portuguesa, da filosofia de Ortega y Gasset. Ele nos fornece uma visão completa do filósofo.

    Ortega y Gasset, a aventura da razão (1994), de Gilberto de Melo Kujawski. Estudioso e intérprete da filosofia orteguina, Kujawski é conhecedor profundo da obra orteguiana e, a partir dela, busca pensar a vida e a realidade brasileira. Na referida obra, faz uma abordagem dos principais pontos tratados por Ortega.

       Outros comentadores de destaque são Ubiratan Macedo e Nelson Saldanha, cujos estudos nos permitem uma apreciação detalhada do autor.

III –  A Ética Raciovitalista

    Em sua formulação teórica, Ortega não trata dos problemas desvinculando-se da sua realidade, mas, ao contrário, pensando-os sempre a partir da sua circunstância. No entender do estudioso Ubiratan Macedo (2001): 

                                                                              “Ortega encontrou no seu tempo um dramatismo  peculiar. Trata-se da
crise do ocidente, da civilização, da razão, do sentido da vida” (p. 52.)
 

     O filósofo utiliza o termo Circunstância para designar tudo o que me rodeia, tudo em que me encontro e com o qual tenho que haver. Nesse sentido, o homem constrói a sua realidade na medida que interpreta o mundo que o circunda. Em sua primeira obra Meditações do Quixote (1914), afirma que eu sou eu e a minha circusntância e se não salvo a ela não salvo também a mim. Significa dizer que a minha vida se estrutura na relação com o que constitui o entorno do eu.   

    Trata-se de pensar “eu com as coisas”, ou melhor, eu transformando as coisas, porque viver é fazer algo; é escolher dentro das inúmeras possibilidades que a circunstância apresenta, aquela que se aproxima da espontaneidade mais íntima da vida de cada um. Pode-se dizer que a pretensão de Ortega é pensar uma relação complementar entre o homem e o mundo.

    É a partir dessa ótica que Ortega estabelece a sua ética raciovitalista. Segundo ele, para compreender o homem e a sua realidade devemos colocar a vida no centro da investigação,, pois é nela que se manifestam todas as formas de experiência do real. As demais realidades para que signifiquem algo, tem que aparecer e se manifestar em minha vida.

    Daí segue-se que o projeto moral da filosofia orteguiana encontra-se no imperativo vital. O que significa que o homem é responsável por suas escolhas e cria o seu próprio projeto moral. Na ética raciovitalista, o traço que identifica o homem moral, o maior valor é de se entregar a sua íntima e original espontaneidade. Entregar-se a um projeto vital, a uma vocação, sendo fiel a si mesmo é característico  do ato moral em sua plenitude. Cabe ressaltar que o termo vocação vem do latim vocare (chamar) e, na reflexão orteguiana, significa o que atrai o sujeito para certa direção, como manifestação de sua espontaneidade. Assim, estamos diante da espontaneidade como valor, da fidelidade a si mesmo como algo fundamental.

    É a partir dessas considerações que devemos compreender o significado dos valores na ética racovitalista A singularidade do pensamento orteguiano consiste numa interpretação objetiva dos valores.  

IV – A teoria subjetiva do valor

     Para entender a interpretação objetiva dos valores, faz-se necessário explicitar duas teorias que ocupavam a cultura naqueles dias, servindo como ponto de partida para Ortega em sua formulação teórica.  

     A primeira elaboração teórica que Ortega examinou foi a teoria psicológica do valor de Alois Meinong¹.  Esse filósofo estabelece uma interpretação subjetiva, onde o homem valoriza as coisas de acordo com o seu sentimento de agrado ou desagrado. Nessa ótica, eu dou valor ou prefiro esta ou aquela  coisa. O que me agrada eu valorizo positivamente e o que me desagrada negativamente. O valor corresponde assim, aos estados psicológicos do homem.

     A segunda teoria do valor que Ortega analisa é a proposta pelo filósofo Eherenfels². Em sua formulação teórica, Eherenfels segue a mesma linha subjetiva de Meinong. Entretanto, para ele são valiosas as coisas que desejamos e não necessariamente aquilo que nos agradam. 

     Eherenfels entende que desejamos as coisas que não possuímos, como por exemplo, o talento que não temos, uma posição que esperamos alcançar. Assim, as coisas que não possuímos mas almejamos têm valor. Nesse ponto nos deparamos com a seguinte questão: só valoramos as coisas que não temos? O filósofo esclarece que  as coisas existentes, que já alcançamos, não despertam o nosso desejo, e assim não lhes conferimos valor. Entretanto, o que é valorado pelo homem é a idéia de que certas coisas que possuímos, se não existissem, as desejaríamos. Daí segue-se que o valor é ser “desejado” e “desejável” (O. C., p.321. v. VI).   

V – A crítica de Ortega às teorias subjetivas do valor

     No entender de Ortega, o ponto em comum entre as duas teorias subjetivas acima analisadas é que “para as duas o valor não é nada positivo no objeto, mas emanação do sentimento ou desejo subjetivo” (Idem, p.324.). Ou seja, nos dois casos o valor corresponde aos estados psíquicos do sujeito. É em relação a esse aspecto fundamental que Ortega constrói a sua crítica.

    Segundo ele, os estados psíquicos sofrem variação de intensidade, e, sendo assim, os valores teriam que variar da mesma forma. Ora, quanto maior for o desejo ou o agrado, maior o valor. Entretanto, Ortega afirma que o valor não pode sofrer essa variação, ou o sujeito identifica um determinado valor ou não.

     Para contrariar as teses anteriores, o filósofo propõe o seguinte exemplo: quando um sujeito sofre uma ferida por salvar um amigo, ele sente um sentimento de desagrado, de repulsão, mas valoriza positivamente o fato de ter salvo alguém. Daí pode-se observar que o sentimento de desagrado não corresponde ao valor negativo proporcional.

    Tendo em vista as análises acima, Ortega enfatiza que é falso colocar os valores, assim como seu caráter positivo e negativo, em função do agrado ou desagrado, do desejo ou da repulsão (Idem, p.325). Para ele os valores são objetivos, estão presentes nos objetos e não estados subjetivos. 

    Daí segue-se que não é o nosso desejo ou agrado quem dá valor às coisas. O valor está presente nos objetos, independente do sentimento que nutrimos. Sobre esse assunto esclarece José Maurício de Carvalho, na obra Introdução ao pensamento à filosofia da Razão Vital de Ortega y Gasset ( 2002):

“A meditação sobre a experiência dos valores é que levou Ortega a concluir pela objetividade dos valores, objetividade que se assemelha à obtida na matemática, Os valores não dependem, portanto, dos caprichos da subjetividade individual, são objetivos” (p. 362). 

     Entretanto, para identificar um valor presente nas coisas é preciso fazer uma estimativa delas, ou melhor, uma avaliação das coisas. Apesar de ser uma qualidade presente nos objetos, o valor não pode ser identificado pela percepção imediata. Estimar para Ortega é “realizar uma função psíquica do real – como o ver, como o entender – em que os valores se nos fazem patentes” (O.C., p. 330. v. VI). 

     Daí pode-se dizer que as coisas têm qualidades próprias que podem ser identificadas pela percepção imediata. Por exemplo, um quadro, ele possui determinada moldura, cores e formas especificas que são apreendidas pelos nossos sentidos. Mas também possui qualidades irreais, que não estão presente na sua arquitetura física, mas que faz parte dele, que são os valores. Da mesma forma que a igualdade de dois objetos só pode ser percebida por indivíduos capazes de fazer uma comparação, os valores também só podem ser identificados quando é realizada uma estimativa do objeto, ou melhor quando é feita uma avaliação deles.

     Finalmente, como esclarece Nelson Saldanha (1986), o problema dos valores não se dissocia da cultura e da história e isto tem um sentido específico: “o homem ocidental de hoje é distinto do que era antes, mas seu ser atual inclui o anterior. Ou ainda, somos outros que o homem de 1700, e somos mais” (p.15). O homem de hoje não é mais  nem feudal, nem absolutista, mas tem em si os elementos já vividos na forma de passado. O problema do valor também se relaciona aos desafios de um certo tempo, de uma certa geração. 

VI – Considerações finais

     A partir da teoria objetiva dos valores, podemos reconhecer em Ortega uma leitura histórica dos valores. Isto é, quando Ortega estabelece que os valores estão presentes nos objetos, e que o homem faz uma estimativa deles, significa que cada povo e cultura, de acordo com suas necessidades e as exigências de um certo tempo, identificam valores que os ajudam a viver melhor. 

    Assim, em alguns casos, percebemos determinados objetos e não identificamos seus valores. E, em outros ocasiões, podemos identificar valor à esses mesmos objetos. Cada povo, vivendo uma determinada circunstância, cria o seu perfil estimativo.  

    Com esta comunicação podemos indicar que a teoria objetiva do valor contribui de forma significativa para compreender como se estabelece a relação do homem com mundo. Além disso, faz necessário ressaltar que o significado dos valores na ética raciovitalista está relacionado com uma interpretação objetiva, com a experiência moral e com a espontaneidade vital. Segundo o filósofo, a meditação ética de nosso tempo deve enfrentar tais questões para esclarecer o que é a vida homem.

_____________

¹ Alois Meinong foi professor de filosofia em Praga. Na obra Investicações psicológicas para uma teoria do valor (1984), desenvolve o problema geral acerca do valor.

²Chr. Von Ehrenfels, companheiro de escola filosófica de  Meinong. Sua teoria do valor encontra-se desenvolvida na obra System der werttheorie (1898).

 

VII – Referências bibliográficas

 ORTEGA Y GASSET, José.
___. Introducción a una estimativa. Obras Completas. 2. Ed. Tomo VI. Madrid: Alianza Editorial, 1997.
___. Introducción a un Don Juan.
Obras Completas. 2. Ed. Tomo VI. Madrid: Alianza Editorial, 1997.

___. La rebelión de las masas. Obras Completas. 2. Ed. Tomo IV. Madrid: Alianza Editorial, 1993.
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___. La cuestión moral. Obras Completas. 2. Ed. Tomo X . Madrid: Alianza Editorial, 1993.
___. Ideas y Creencias. Obras Completas. 2 . ed. Tomo V. Madrid: Alianza Editorial, 1993.
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CARVALHO, José Maurício.
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___. Ortega y Gasset, um intelectualismo ainda atual. In: Atas do Colóquio Ortega y Gasset. São João del-Rei: UFSJ, 2003.

MARÍAS, Julián. História da Filosofia. Porto: Edições Souza e Almeida.

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___. O valor da vida. Brasília: Letrativa, 1999.

MACEDO, Ubiratan Borges.
___. A filosofia de Ortega y Gasset. In: A presença da moral na cultura brasileira. Londrina: EDUEL, 2001.
___. Vida e valores na filosofia da razão vital de Ortega y Gasset. In: Problemas e teorias da ética contemporânea. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
___. Vocação e missão na filosofia de Ortega y Gasset. In: Revista Brasileira de Filosofia. 44(217): 85-98. Jan./Mar. 2005.

SALDANHA, Nelson. Historicismo e Culturalismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Recife: Fundaspe, 1986.

ARANGUREN, José Luis L. La ética de Ortega. Madrid: Taurus, 1958.

GONZALES, Leopoldo. A gratuidade ética de Ortega Y Gasset. São Paulo: Annablume, 2001.

  

        

 

Fernanda de Araújo Melo (Bolsista de Iniciação Científica / UFSJ)

Orientador: Prof. Dr. José Maurício de Carvalho / UFSJ

 

© Fernanda de Araújo Melo