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Resumo
Palavras-chave
VI.
Consideracões
finais
VII – Referências
bibliográficas
Resumo:
A referida comunicação tem como objetivo o significado
dos valores na ética raciovitalista de Ortega y Gasset. Segundo o filósofo,
viver é fazer algo, é escolher dentre as inúmeras possibilidades, qual
caminho seguir. E estas escolhas, esclarece Ortega, pautam-se nos valores
que o sujeito identifica para melhor administrar a sua vida. A singularidade
do pensamento orteguiano encontra-se numa interpretação objetiva. É a partir
dessa ótica que buscamos compreender o significado do valor proposto pelo
filósofo.
Palavras-chave:
Raciovitalismo, circunstância, valor
A referida comunicação tem
como objetivo examinar o significado dos valores na ética raciovitalista de
Ortega y Gasset. A questão dos valores é um tema que Ortega considera
relevante para entender como ocorre a relação do homem com o mundo que o
circunda. Segundo ele, quando o homem ignora o papel dos valores fica
distante de perceber o que está acontecendo à sua volta. Cabe ressaltar que as
discussões e análise sobre o significado do valor foram desenvolvidas no
século XX. Antes, o problema vinha vinculado à outras questões, conforme
esclarece o filósofo:
“o valor ou
aparece fundido e indiferenciado em outros problemas, ou pelo contrário, se
deslizará disfarçado sobre algumas de suas formas particulares” (O.C., p.
316. v. VI).
Faz-se necessário precisar
que a questão dos valores está presente em toda historia da filosofia, mas
somente na contemporaneidade passa a ser investigado separadamente com o
desenvolvimento da axiologia.
Na ética raciovitalista, o
significado do valor encontra-se diretamente relacionado com as escolhas que
temos que fazer. Segundo Ortega, viver é fazer algo, é escolher dentre as
inúmeras possibilidades, qual caminho seguir. E estas escolhas, esclarece o
filósofo, pautam-se nos valores que o sujeito identifica para melhor
administrar a sua vida.
Dividimos essa comunicação
em duas partes. Inicialmente veremos como o filósofo estabelece as bases de
sua ética raciovitalista. Os detalhes são apresentados no item III. Em
seguida, assumimos como eixo de investigação a sua teoria do valor, cujos
aspectos investigamos nos itens IV e V.
II – Revisão de literatura
Utilizamos nessa
comunicação as Obras Completas, de José Ortega y Gasset, editadas em Madrid,
pela Alianza. Como leitura de apoio, valemo-nos de alguns comentadores:
História da Filosofia de Julián Marías. Na referida obra, Marías dedica
um capítulo para comentar os principais pontos da filosofia orteguiana.
Discípulo direto de Ortega, é o principal intérprete da filosofia
raciovitalista.
Introdução à Filosofia
da Razão Vital (2002), de José Maurício de
Carvalho. Nesta obra, o autor faz uma leitura culturalista do pensamento
orteguiano. No capítulo “A vida e seus valores”, afirma que Ortega fez uma
filosofia da cultura, onde inseriu sua teoria do valor. Este livro é um dos
principais estudos, em língua portuguesa, da filosofia de Ortega y Gasset.
Ele nos fornece uma visão completa do filósofo.
Ortega y Gasset, a
aventura da razão (1994), de Gilberto de Melo
Kujawski. Estudioso e intérprete da filosofia orteguina, Kujawski é
conhecedor profundo da obra orteguiana e, a partir dela, busca pensar a vida
e a realidade brasileira. Na referida obra, faz uma abordagem dos principais
pontos tratados por Ortega.
Outros comentadores de
destaque são Ubiratan Macedo e Nelson Saldanha, cujos estudos nos permitem
uma apreciação detalhada do autor.
Em sua formulação teórica,
Ortega não trata dos problemas desvinculando-se da sua realidade, mas, ao
contrário, pensando-os sempre a partir da sua circunstância. No entender do
estudioso Ubiratan Macedo (2001):
“Ortega
encontrou no seu tempo um dramatismo peculiar. Trata-se da crise do
ocidente, da civilização, da razão, do sentido da vida” (p. 52.)
O filósofo utiliza o termo
Circunstância para designar tudo o que me rodeia, tudo em que me
encontro e com o qual tenho que haver. Nesse sentido, o homem constrói a sua
realidade na medida que interpreta o mundo que o circunda. Em sua primeira
obra Meditações do Quixote (1914), afirma que
eu sou eu e a minha
circusntância e se não salvo a ela não salvo também a mim. Significa
dizer que a minha vida se estrutura na relação com o que constitui o entorno
do eu.
Trata-se de pensar “eu com
as coisas”, ou melhor, eu transformando as coisas, porque viver é fazer
algo; é escolher dentro das inúmeras possibilidades que a circunstância
apresenta, aquela que se aproxima da espontaneidade mais íntima da vida de
cada um. Pode-se dizer que a pretensão de Ortega é pensar uma relação
complementar entre o homem e o mundo.
É a partir dessa ótica que
Ortega estabelece a sua ética raciovitalista. Segundo ele, para compreender
o homem e a sua realidade devemos colocar a vida no centro da investigação,,
pois é nela que se manifestam todas as formas de experiência do real. As
demais realidades para que signifiquem algo, tem que aparecer e se
manifestar em minha vida.
Daí segue-se que o projeto
moral da filosofia orteguiana encontra-se no imperativo vital. O que
significa que o homem é responsável por suas escolhas e cria o seu próprio
projeto moral. Na ética raciovitalista, o traço que identifica o homem
moral, o maior valor é de se entregar a sua íntima e original
espontaneidade. Entregar-se a um projeto vital, a uma vocação, sendo fiel a
si mesmo é característico do ato moral em sua plenitude. Cabe ressaltar que
o termo vocação vem do latim vocare (chamar) e, na reflexão
orteguiana, significa o que atrai o sujeito para certa direção, como
manifestação de sua espontaneidade. Assim, estamos diante da espontaneidade
como valor, da fidelidade a si mesmo como algo fundamental.
É a partir dessas
considerações que devemos compreender o significado dos valores na ética
racovitalista A singularidade do pensamento orteguiano consiste numa
interpretação objetiva dos valores.
Para entender a
interpretação objetiva dos valores, faz-se necessário explicitar duas
teorias que ocupavam a cultura naqueles dias, servindo como ponto de partida
para Ortega em sua formulação teórica.
A primeira elaboração
teórica que Ortega examinou foi a teoria psicológica do valor de Alois
Meinong¹. Esse filósofo estabelece uma interpretação subjetiva, onde o
homem valoriza as coisas de acordo com o seu sentimento de agrado ou
desagrado. Nessa ótica, eu dou valor ou prefiro esta ou aquela coisa. O que
me agrada eu valorizo positivamente e o que me desagrada negativamente. O
valor corresponde assim, aos estados psicológicos do homem.
A segunda teoria do valor
que Ortega analisa é a proposta pelo filósofo Eherenfels². Em sua formulação
teórica, Eherenfels segue a mesma linha subjetiva de Meinong. Entretanto,
para ele são valiosas as coisas que desejamos e não necessariamente aquilo
que nos agradam.
Eherenfels entende que
desejamos as coisas que não possuímos, como por exemplo, o talento que não
temos, uma posição que esperamos alcançar. Assim, as coisas que não
possuímos mas almejamos têm valor. Nesse ponto nos deparamos com a seguinte
questão: só valoramos as coisas que não temos? O filósofo esclarece que as
coisas existentes, que já alcançamos, não despertam o nosso desejo, e assim
não lhes conferimos valor. Entretanto, o que é valorado pelo homem é a idéia
de que certas coisas que possuímos, se não existissem, as desejaríamos. Daí
segue-se que o valor é ser “desejado” e “desejável” (O. C., p.321. v. VI).
No entender de Ortega, o ponto em comum entre as duas teorias subjetivas
acima analisadas é que “para as duas o valor não é nada positivo no objeto,
mas emanação do sentimento ou desejo subjetivo” (Idem, p.324.). Ou
seja, nos dois casos o valor corresponde aos estados psíquicos do sujeito. É
em relação a esse aspecto fundamental que Ortega constrói a sua crítica.
Segundo ele, os estados
psíquicos sofrem variação de intensidade, e, sendo assim, os valores teriam
que variar da mesma forma. Ora, quanto maior for o desejo ou o agrado, maior
o valor. Entretanto, Ortega afirma que o valor não pode sofrer essa
variação, ou o sujeito identifica um determinado valor ou não.
Para contrariar as teses
anteriores, o filósofo propõe o seguinte exemplo: quando um sujeito sofre
uma ferida por salvar um amigo, ele sente um sentimento de desagrado, de
repulsão, mas valoriza positivamente o fato de ter salvo alguém. Daí pode-se
observar que o sentimento de desagrado não corresponde ao valor negativo
proporcional.
Tendo em vista as análises
acima, Ortega enfatiza que é falso colocar os valores, assim como seu
caráter positivo e negativo, em função do agrado ou desagrado, do desejo ou
da repulsão (Idem, p.325). Para ele os valores são objetivos, estão
presentes nos objetos e não estados subjetivos.
Daí
segue-se que não é o nosso desejo ou agrado quem dá valor às coisas. O valor
está presente nos objetos, independente do sentimento que nutrimos. Sobre
esse assunto esclarece José Maurício de Carvalho, na obra
Introdução ao
pensamento à filosofia da Razão Vital de Ortega y Gasset ( 2002):
“A meditação sobre a experiência dos valores é que levou Ortega a concluir
pela objetividade dos valores, objetividade que se assemelha à obtida na
matemática, Os valores não dependem, portanto, dos caprichos da
subjetividade individual, são objetivos” (p. 362).
Entretanto, para
identificar um valor presente nas coisas é preciso fazer uma estimativa
delas, ou melhor, uma avaliação das coisas. Apesar de ser uma qualidade
presente nos objetos, o valor não pode ser identificado pela percepção
imediata. Estimar para Ortega é “realizar uma função psíquica do real –
como o ver, como o entender – em que os valores se nos fazem patentes”
(O.C., p. 330. v. VI).
Daí pode-se dizer que as
coisas têm qualidades próprias que podem ser identificadas pela percepção
imediata. Por exemplo, um quadro, ele possui determinada moldura, cores e
formas especificas que são apreendidas pelos nossos sentidos. Mas também
possui qualidades irreais, que não estão presente na sua arquitetura física,
mas que faz parte dele, que são os valores. Da mesma forma que a igualdade
de dois objetos só pode ser percebida por indivíduos capazes de fazer uma
comparação, os valores também só podem ser identificados quando é realizada
uma estimativa do objeto, ou melhor quando é feita uma avaliação deles.
Finalmente, como esclarece
Nelson Saldanha (1986), o problema dos valores não se dissocia da cultura e
da história e isto tem um sentido específico: “o homem ocidental de hoje é
distinto do que era antes, mas seu ser atual inclui o anterior. Ou ainda,
somos outros que o homem de 1700, e somos mais” (p.15). O homem de hoje não
é mais nem feudal, nem absolutista, mas tem em si os elementos já vividos
na forma de passado. O problema do valor também se relaciona aos desafios de
um certo tempo, de uma certa geração.
A partir da teoria objetiva
dos valores, podemos reconhecer em Ortega uma leitura histórica dos valores.
Isto é, quando Ortega estabelece que os valores estão presentes nos objetos,
e que o homem faz uma estimativa deles, significa que cada povo e cultura,
de acordo com suas necessidades e as exigências de um certo tempo,
identificam valores que os ajudam a viver melhor.
Assim, em alguns casos,
percebemos determinados objetos e não identificamos seus valores. E, em
outros ocasiões, podemos identificar valor à esses mesmos objetos. Cada
povo, vivendo uma determinada circunstância, cria o seu perfil estimativo.
Com esta comunicação podemos
indicar que a teoria objetiva do valor contribui de forma significativa para
compreender como se estabelece a relação do homem com mundo. Além disso, faz
necessário ressaltar que o significado dos valores na ética raciovitalista
está relacionado com uma interpretação objetiva, com a experiência moral e
com a espontaneidade vital. Segundo o filósofo, a meditação ética de nosso
tempo deve enfrentar tais questões para esclarecer o que é a vida homem.
_____________
¹
Alois Meinong foi professor de filosofia em Praga. Na obra
Investicações
psicológicas para uma teoria do valor (1984), desenvolve o problema
geral acerca do valor.
²Chr. Von Ehrenfels, companheiro de escola filosófica de Meinong. Sua
teoria do valor encontra-se desenvolvida na obra
System der werttheorie
(1898).
VII – Referências
bibliográficas
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Obras
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2. Ed. Tomo VI. Madrid: Alianza Editorial, 1997. ___.
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Completas. 2. Ed. Tomo X . Madrid: Alianza Editorial, 1993. ___.
Ideas y Creencias. Obras
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¿Qué es Filosofia? Obras
Completas. 2. Ed. Tomo nVII. Madrid: Alianza Editorial, 1993.
CARVALHO, José Maurício.
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Introdução à
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2002. ___. Ortega y Gasset,
um intelectualismo ainda atual. In: Atas do Colóquio Ortega y Gasset.
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Ortega y
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MACEDO, Ubiratan Borges.
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Vida e valores na filosofia da razão vital de Ortega y
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Vocação e missão na filosofia de Ortega y Gasset.
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SALDANHA, Nelson. Historicismo e
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1986.
ARANGUREN, José Luis L.
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Madrid: Taurus, 1958.
GONZALES, Leopoldo.
A gratuidade ética de
Ortega Y Gasset. São Paulo: Annablume, 2001.
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